ANO 22 – 1977 – A Medicina descobre a cooperação
Por Leandro Resende
Em um consultório de Goiânia, em 1977, dois médicos conversavam sobre algo que ainda soava estranho para a maioria da categoria: e se, em vez de disputarem pacientes isolados, os profissionais se organizassem como faziam os produtores rurais há décadas? A pergunta não era aleatória. Ela vinha ganhando resposta concreta em todo o País.
O modelo tinha nome e endereço. Desde a fundação da Unimed do Brasil, em 1975, o cooperativismo médico se espalhava como poucos movimentos na saúde brasileira. Em 1977, já eram cerca de 60 cooperativas Unimed em funcionamento pelo território nacional – uma malha que crescia Estado por Estado, cidade por cidade, oferecendo aos médicos autonomia profissional e, aos usuários, uma alternativa ao sistema então vigente.
Goiás não ficava fora desse debate. Três anos antes, em 1974, o Estado havia dado uma demonstração pioneira ao fundar a Coopanest-GO, uma das primeiras cooperativas de especialidade médica do Brasil, reunindo anestesiologistas em torno da ideia de que a organização coletiva fortalecia quem, sozinho, ficava à mercê do mercado. A semente da cooperação na medicina goiana, portanto, já havia brotado.
O ambiente institucional favorecia o amadurecimento. Sob a coordenação da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG) – hoje OCB/GO –, o movimento se diversificava para muito além do campo. A Lei nº 5.764, de 1971, já consolidada, dava segurança jurídica às novas iniciativas, e o cooperativismo deixava de ser visto como assunto exclusivo de lavradores para se tornar ferramenta de organização também de categorias urbanas e profissionais liberais.
Em 1977, Goiás vivia a véspera da mudança. Os médicos que conversavam naqueles consultórios ainda não sabiam a data exata, mas sentiam que o movimento nacional bateria à porta da capital mais cedo do que tarde. A pergunta já não era se o cooperativismo médico chegaria a Goiânia, mas quando.



ANO 23 – 1978 – Nasce a Unimed Goiânia
No dia 21 de fevereiro de 1978, quarenta e nove médicos reuniram-se em Goiânia para fazer o que, poucos anos antes, ainda parecia ousadia: assinar a ata de fundação de uma cooperativa. Nascia, ali, a Unimed Goiânia e, com ela, o cooperativismo médico em Goiás deixava de ser uma promessa observada de longe para se tornar realidade local, com sede, estatuto e nome próprio.
Desde 1975, a Unimed do Brasil vinha costurando uma rede que já reunia dezenas de cooperativas pelo País e, em 1977, o movimento havia entrado na pauta em Goiás. A capital não improvisava: três anos antes da própria Unimed, a Coopanest-GO (1974) já provara que anestesiologistas organizados eram mais fortes que profissionais isolados. Os 49 fundadores de 1978 caminhavam, portanto, sobre um terreno preparado.
O que os movia era, no fundo, a mesma lógica que animava o produtor rural do Cerrado: autonomia diante de um mercado desigual. Ao se unirem em cooperativa, os médicos preservavam a independência profissional e, ao mesmo tempo, ofereciam à população uma alternativa de assistência. Era o forte princípio cooperativista – a força do coletivo protegendo o indivíduo – aplicado, agora, ao jaleco branco.
Sob a coordenação da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG), o movimento confirmava a sua vocação plural. Em um mesmo Estado, e quase no mesmo tempo, a cooperação avançava em frentes distintas: a saúde ganhava a Unimed e o agronegócio dava um salto de infraestrutura.
Pois 1978 também foi o ano em que a cooperativa Comigo, fundada em 1975 no sudoeste goiano, ergueu o seu primeiro grande armazém. A estrutura, pensada para receber a produção de arroz de seus cooperados, marcava a passagem de uma cooperativa de intenções para uma cooperativa de ativos – capaz de armazenar, negociar em escala e proteger o produtor das oscilações de preço na hora da colheita. No coração do Cerrado, o concreto do armazém era a prova física de que a aposta de 1975 vingara.
Dois marcos, duas frentes, uma só lógica. Em 1978, o cooperativismo goiano mostrava que havia amadurecido o suficiente para crescer em várias direções ao mesmo tempo, sustentando o médico na capital e o lavrador no interior sob o mesmo princípio de organização.















