Há caminhos que não se medem em quilômetros, mas em memória. Todos os anos, do fim de junho ao primeiro domingo de julho, milhões de pessoas convergem para Trindade em uma das maiores romarias do Brasil — a Festa do Divino Pai Eterno. Muito além de sua dimensão religiosa, ela é um dos mais autênticos documentos vivos da cultura goiana.
A história começa por volta de 1840, quando o casal de lavradores Constantino Xavier e Ana Rosa de Oliveira encontrou, às margens do córrego do Barro Preto — a poucos quilômetros de onde hoje está Goiânia —, um medalhão de barro com a imagem da Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. Não por acaso, a devoção nasceu da terra e do trabalho da roça. Era o tempo em que, esgotado o ciclo do ouro, Goiás se reinventava na agricultura e na pecuária. A fé que floresceu ali trazia, desde a origem, o cheiro do campo.
É por isso que a Festa de Trindade é, antes de tudo, uma expressão da goianidade. Nela, se reconhece o sertanejo do interior, o homem e a mulher do campo que, gerações a fio, preparam-se durante meses para a caminhada. O ponto alto é o desfile dos carros de boi — reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil —, quando o canto rangente dos eixos de madeira anuncia, léguas antes, a chegada das comitivas. Carreiros, candeeiros, cavaleiros e muladeiros se colocam como guardiões de um modo de vida que a modernidade não apagou.
Há quem venha a cavalo, quem conduza o carro de boi por estradas de terra, e quem, como tantos goianos, faça a pé o trajeto de cerca de vinte quilômetros que separa a capital do Santuário. Cada passo carrega um propósito.
E foi assim desde o começo: Com o crescimento da devoção local, Constantino viajou mais de 120 km até Pirenópolis para pedir ao renomado artista plástico Veiga Valle que restaurasse a peça ou fizesse uma réplica maior. Veiga Valle acabou esculpindo uma linda imagem de madeira de cerca de 30 centímetros. Ao ir buscá-la, Constantino percebeu que não tinha dinheiro suficiente para pagar pelo trabalho do artista. Movido pela fé, ele deixou o seu próprio cavalo como pagamento e decidiu fazer toda a viagem de volta a pé. Ao caminhar essa longa distância carregando a nova imagem nos braços até o antigo arraial de Barro Preto (hoje, Trindade), Constantino inaugurou o ato da caminhada por devoção. Ele foi recebido em festa pela comunidade, dando origem histórica à tradição da romaria a pé que se repete há mais de 180 anos, tornando-se o primeiro romeiro.
Não à toa, desde 2024 a tradição ganhou também contornos jurídicos. A Lei Estadual nº 22.813, de 27 de junho daquele ano, transfere simbolicamente a capital de Goiás para Trindade na quinta-feira que antecede o encerramento da festa — justamente o dia do desfile dos carros de boi. Por algumas horas, os três Poderes do Estado se deslocam à Capital da Fé, num gesto que reconhece, no plano institucional, o que o povo já sabia de longa data.
Poucas manifestações traduzem com tanta força o que somos: um povo forjado no encontro entre a fé simples, a lida da terra e a fidelidade a uma promessa. Tive o privilégio de fazer a caminhada esse ano e afirmo com convicção: Caminhar até Trindade é, no fundo, caminhar por dentro da própria história goiana.

Juscimar Ribeiro,
Advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional














