O Brasil tem o vício de medir Goiás pela soja e pelo boi, como se o Centro-Oeste fosse apenas um celeiro, um pasto ou um curral. Erro 001. Goiás não terceirizou a inteligência produtiva para os portos de São Paulo, pois temos aqui o 7º parque fabril do País e o campo fala (como dizem os boleiros). Os entendedores entenderão.
Segue o fio. Os três retratos do IBGE, divulgados nos últimos dias, revelam mais. A Pesquisa Industrial Anual (PIA), o Cadastro Central de Empresas (Cempre) e a Pnad Contínua de Educação não apenas desmentem essa preguiça de leitura. Analisados em conjunto, contam a história de um estado que parou de ser apenas origem de commodity e passou a ser também fabricante. Segue.
Leitura 01: Indústria. Em 2024, Goiás registrou 7.648 indústrias com cinco ou mais colaboradores – quase o dobro de Mato Grosso e mais do que a soma de todo o restante do Centro-Oeste. Não é um detalhe regional, é a sétima maior força industrial do País (repetindo para reforçar), com 270 mil trabalhadores diretos e R$ 215 bilhões em receita líquida. Se olhar pela Rais, que mede toda renda ligada ao setor, o número ultrapassa 1,1 milhão de pessoas, de empregador a terceiros, de empregado a fornecedor.
Mais da metade da receita da indústria goiana, 51,9%, sai de uma única atividade, a fabricação de alimentos. Aí, faz convergência com a tese do agro (mas a agroindústria, que puxa o agrocomércio e agrosserviços).
A pedra no sapato incômoda é o salário. A indústria goiana paga, em média, R$ 3.575 por mês, o 12º do País, abaixo da média nacional de R$ 4.343 e atrás de quase todos os pares relevantes. É o paradoxo do Estado que produz muito e ainda remunera pouco. Uma economia que processa alimento em escala, mas cuja folha ainda reflete um trabalho de menor densidade tecnológica. A indústria de alimentos emprega bem, mas paga modesto; a metalurgia, que paga R$ 6.732, ainda é exceção.
O desafio goiano dos próximos anos não é produzir mais, é produzir mais caro (maior valor agregado, no sentido nobre da palavra), com preço final de gôndola – nosso maior problema hoje. O empresário local não paga menos porque é mau. Se a industrialização é uma grande vitória da economia goiana, nosso produto tem desvantagens competitivas, como, só para citar duas, o custo extra de transporte e a perda real e contínua dos incentivos fiscais desonerados antes pelos governos estaduais com pedágios. Um exemplo é o Protege, que antecipou a reforma tributária tratorista e anti-incentivos do Governo Federal. Segue.
Leitura 02: Goiás chegou a 419 mil unidades locais ativas em 2024, terceiro maior avanço do País (7,2%). Além disso, Senador Canedo entrou pela, primeira vez, no Top 10 do Estado, crescendo 11%. O eixo logístico do entorno de Goiânia está se adensando. Mas este dado, do Cempre, repete a PIA: o pessoal assalariado cresceu 3,3%, e o salário médio recuou 4%.
Mais gente trabalhando, mas ganhando menos. A conta: preço menor gera lucro e salários menores para o empresário e para o trabalhador, respectivamente. É natural em uma economia emergente. E paga-se um preço: as melhores cabeças vão embora, e as pesquisas e o desenvolvimento de produtos ficam precários — mais pobres.
Leitura 03: Educação. Goiás registrou a menor taxa de analfabetismo de sua história (3,5%) e a maior proporção já vista de adultos que concluíram a educação básica. O percentual de jovens que nem estudam nem trabalham caiu para 14,1%, o menor da série. São dados de movimentação de status (educação é base, mesmo a básica).
A mão de obra, daqui a uma década, poderá sustentar aquela indústria de maior valor, que, hoje, os salários ainda não valorizam, mas prometem. Dado da Educação que merece foco: O ensino superior segue desigual, pois alcança a meta entre brancos e mulheres, mas falha entre pretos e pardos.
Leitura final: A indústria mostra capacidade instalada; o cadastro de empresas, dinamismo de criação; a Educação, capital humano que está se formando. O salário baixo e a sala de aula de hoje são reflexos do ontem. Precisa-se reindustrializar Goiás e transformar o amanhã para além da matéria-prima, alcançando o mercado de consumo (gente). A China está dando essa aula hoje. Uma indústria competitiva não se constrói com salário baixo, mas com inovação, gente e marca.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














