Um artigo recém-publicado no Journal of Democracy — uma das mais influentes revistas de ciência política do mundo — colocou o que vivemos em perspectiva histórica e comparativa. Os pesquisadores Luciano Da Ros, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Manoel Gehrke, da Universidade de Pisa, documentaram algo que poucos percebem em sua real dimensão: desde 1946, apenas onze ex-chefes de governo no mundo foram condenados por golpe ou autogolpe. A condenação de Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, é uma delas — a primeira vez na história brasileira que uma tentativa de golpe, bem-sucedida ou não, foi punida pelo Judiciário.
O argumento dos autores é que a condenação de Bolsonaro não foi um acidente nem uma vitória isolada do STF. Foi o resultado de uma estratégia judicial de quatro anos — exercida, muitas vezes, em autodefesa, sob enorme pressão e incerteza. As cortes bloquearam decretos de concentração de poder, abriram inquéritos sobre milícias digitais, impediram a manipulação das regras eleitorais e, de forma que mudou o curso da história, anularam a condenação de Lula — devolvendo ao jogo democrático o único adversário com envergadura real para derrotá-lo nas urnas. Um ministro do STF resumiu o clima daqueles anos numa frase assombrosa: “Não dormimos desde fevereiro de 2019”.
O que é mais convincente na análise de Da Ros e Gehrke é justamente que nenhuma instituição sozinha salvou a democracia brasileira. O Judiciário agiu com firmeza — mas precisou do Legislativo, que rejeitou o retorno às urnas de papel e reconheceu rapidamente os resultados de 2022. Precisou da mídia independente, que expôs em tempo real as entranhas do plano golpista. Precisou da sociedade civil e dos partidos de oposição, que construíram a coalizão eleitoral mais ampla da história recente. E precisou, após a posse, do Executivo — com a nomeação de um novo procurador-geral, a Polícia Federal conduzindo investigações sem interferência política e o governo Lula garantindo as condições institucionais para que o julgamento ocorresse.
Os pesquisadores, porém, não nos deixam celebrar em paz — e fazem bem. As eleições de 2026 podem redesenhar dois terços do Senado, que tem sido o principal escudo parlamentar contra o STF. Uma maioria simpática ao bolsonarismo poderia aprovar uma anistia ampla, devolver Bolsonaro à arena política e pressionar o Tribunal com ameaças de impeachment a seus ministros. A história internacional registra casos em que condenações foram revertidas rapidamente: na Coreia do Sul, os generais golpistas foram anistiados apenas um ano após a sentença. No Brasil de 2026, esse risco não é ficção.
Devemos defender a democracia brasileira com unhas e dentes — não por ingenuidade, mas por memória. Sabemos o que foi construído com sacrifício e sabemos o que pode ser perdido com descuido. O Brasil provou ao mundo que é possível responsabilizar quem tenta destruir o Estado de Direito. Isso é raro, extraordinário e deve ser celebrado. Mas a democracia não se defende no passado. Ela se defende nas eleições de 2026, na escolha dos senadores, na pressão sobre os parlamentares, na recusa cotidiana à amnésia. Quem foi às ruas nas Diretas Já, quem chorou de raiva e medo no 8 de janeiro, não pode — não deve — descansar.

Marcos Freitas,
sócio-Diretor Economista, Mestre em Finanças e Mestrando em Turismo. 34 anos de experiência no Setor de Turismo. Foi coo-fundador da WAM Negócios e coo-fundador da AMT Group














