Juscelino Kubitschek deu ao Brasil o símbolo da ousadia e do desenvolvimento. “50 anos em 5”. Esse foi lema do visionário médico mineiro.
O país acreditou: estradas rasgavam o cerrado; Brasília nascia do traço de Oscar Niemeyer; a indústria acelerava; o sonho de desenvolvimento parecia ao alcance de mão. JK personificava o futuro: trabalho, tecnologia, fábricas; personificava um Brasil que, enfim, estaria preparado para o século XXI, assim como os asiáticos estão hoje.
Ocorre que o tempo – que é senhor da razão – sempre traz a verdade. Para nós, brasileiros, a verdade, infelizmente, costuma ser “lenta, dura e gradual”, nas palavras da ditadura.
Na última semana, quase 50 anos depois da morte do maior líder político desenvolvimentista do Brasil, um novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos conclui: JK não morreu em acidente de carro na Via Dutra; foi assassinado pela ditadura, o de que todos nós suspeitávamos, com quase certeza…
A perícia feita chegou à conclusão de que a colisão com ônibus seria fisicamente impossível. Ademais, as cartas da época revelam que serviços secretos consideravam o ex-presidente uma ameaça. A mentira de “acidente”, sustentada oficialmente por décadas, desmoronou. O Nonô, como era chamado por Dona Julia Kubitschek, foi morto covardemente pelo próprio país que ajudou a construir.
O que isso revela? Um Brasil que só descobre a própria história tarde demais. Que ironia com 50 anos em 5 de JK!!
A morte de JK ocorreu porque seu projeto de desenvolvimento, sua influência política e sua presença ameaçavam um Brasil retrógrado e ineficiente; porque incomodava quem sempre escondeu dos brasileiros a vocação de ser grande; porque ofendia burocratas ignorantes sem consciência histórica da grandeza brasileira.
Sem JK, o Brasil estagnou-se economicamente. Fez “voos de galinha” na ditadura. O sonho de JK era a industrialização e a tecnologia. O fez o país? Uma escolha fatal: concentrar a economia em commodities e em matéria-prima barata. Isso não é desenvolvimento: é dependência, como afirma o grande intelectual brasileiro e ex-ministro Roberto Mangabeira Unger.
Essa escolha econômica está atrasando o Brasil. Quando o preço internacional dos produtos primários cai, o país sangra. Quando a cotação sobe, é ilusão passageira e concentração de renda. Sem indústria, sem inovação, sem complexidade econômica, o crescimento vira miragem.
A memória de Juscelino deveria ter sido honrada. Infelizmente, até o projeto de redemocratização o sabotou, em razão da continuidade de um modelo econômico equivocado. Isso envergonha a memória de JK.
Levaram-se cinco décadas para aceitar que o sonho foi assassinado, fisicamente e economicamente. O Brasil prefere mitos a fatos. O Brasil precisa entender que apagamento histórico custa caro para a democracia e para o PIB.
Que esse momento sirva de alerta. Que a política econômica aponte para industrialização. Que o ensino público ensine a história completa. Que o futuro não seja construído sobre silêncios, nem sobre deduções econômicas falsas.
Brasil, 50 anos em 50. Tudo aqui é lento.
JK sonhou conosco. A nós cabe honrar esse sonho com uma economia verdadeiramente de ponta.

Carlos André Pereira Nunes,
Linguista, professor, advogado especializado em redação de atos normativos,
conselheiro da OAB, diretor da ACIEG e Presidente do Instituto Carlos André.














