A política brasileira, em sua essência mais pragmática, acaba de oferecer um espetáculo de equilibrismo que beira o exibicionismo. O anúncio do fim da “taxa das blusinhas”, aquele imposto de importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50, marca uma guinada dramática. Desde 13 de maio de 2026, o que era o pilar de uma arrecadação voraz torna-se fumaça. O governo, que lutou com unhas e dentes no primeiro semestre de 2024 para implementar a medida, agora prefere o desnudamento argumentativo em nome da sobrevivência eleitoral.
Na época da criação, o discurso era técnico e patriótico: era preciso conter o contrabando, valorizar a indústria nacional e proteger o varejo local. De fato, os números não mentiam. Entre janeiro e abril deste ano, a taxa gerou quase R$ 2 bilhões em receita, um recorde que inflou os cofres do fiscalismo de plantão. Lojistas, especialmente os de pequeno porte, comemoraram o fôlego extra, e houve, sim, uma curva positiva na geração de empregos no setor.
Fez-se o certo, mas o decreto foi escrito por linhas tortas. O consumidor chiou, e o barulho chegou, só agora, que já se avisa e sente-se o cheiro das urnas de outubro. O cheiro da democracia (e da demagogia).
As medições de pesquisas eleitorais recentes são o termômetro fatal. O desgaste provocado pelo imposto sobre o consumo popular tornou-se um peso insustentável para quem pretende renovar o mandato. Diante da escolha entre manter a coerência econômica ou blindar o programa eleitoral, o governo escolheu a segunda opção.
Ao zerar a taxa, o Executivo abandona a defesa da indústria e o combate ao descaminho. Fica nu, sem o argumento da proteção nacional, mas espera que o eleitor não note a nudez por trás da cortina de fumaça populista.
A preocupação com o empresário que pode ‘quebrar’ seu negócio com a medida ou com o rombo na arrecadação evaporou. O que importa agora é o voto. Com o dólar em patamares mais baixos, as plataformas chinesas estão prontas para fazer “manobras de jet ski” em um lago de inadimplência que ainda sufoca o País.
O governo ignora que o consumo desenfreado de importados, sem o devido equilíbrio tributário, pode ser o golpe de misericórdia no pequeno comerciante que havia acabado de se estabilizar.
O roteiro é cíclico e previsível: do primeiro ao terceiro ano, o lema é o fiscalismo – arrecadar custe o que custar, sob o manto da responsabilidade. No último ano, o figurino muda para o populismo desenfreado. O governo aceita “engolir sapos” e caminhar despido de lógica econômica, desde que isso garanta a simpatia das massas.
O fim da taxa não é um triunfo da justiça tributária, mas um movimento de autodefesa política. Resta saber se o eleitor verá o benefício no bolso ou se perceberá que, no fim das contas, a conta da indústria e do emprego nacional será cobrada logo ali na frente. E, no pós-eleição, qual será o discurso?

Luiz Antônio de Siqueira,
Advogado na LAS Advogados e contador.














