Noutro dia, em um intervalo de treinamento de comunicação corporativa, um líder da empresa chamou-me e disse-me que estava incomodado com uma prática de treinamento anterior, na qual o professor teria indicado o PALAVRÃO como uma das boas práticas de quebra protocolar nas relações entre colaboradores. Isso geraria, segundo esse instrutor, mais “humanidade” e “aproximaria as pessoas”.
Um dos primeiros resultados que esse líder notou foi que os colaboradores começaram a utilizar de palavrões para “retirar a tensão” em situações mais desafiadoras. Esse líder me relatou que, por causa dessa técnica, começou a ouvir impropérios impensáveis antes na empresa como “porra”, “caralho” ou “foda-se”, para supostamente “espantar o estresse”.
Confesso, leitor, que esses treinamentos “estranhos” ainda me assustam muito.
Mas, vamos refletir sobre eles.
De fato, alguns psicólogos, a exemplo de Timothy Jay, da Massachusetts College of Liberal Arts, enxergam no palavrão um mecanismo catártico. Há realmente estudos que indicam que xingar eleva a tolerância à dor em até 40%; que libera endorfinas e fortalece laços em grupos informais, de forma a ser uma “válvula de escape” sem recorrer à agressão física.
Essa perspectiva, contudo, é superficial e arriscada!
O palavrão é intrinsecamente antiético, pois desnuda uma vulgaridade que erode a dignidade humana, de forma a reduzir o interlocutor a objeto de escárnio. Revela pobreza vocabular e falha de autocontrole, de modo que contraria os preceitos aristotélicos da virtude como meio-termo.
No âmbito familiar, ele deseduca gerações. Pais que soltam um “filho da puta” como afeto plantam desrespeito prosódico nos filhos. Isso mina a autoridade parental e normaliza a grosseria. Já critiquei isso em vários artigos e alertei para o empobrecimento linguístico que transforma lares em arenas de baixaria.
No ambiente de trabalho, o dano é corrosivo e mensurável. O uso do palavrão gera toxicidade relacional e fomenta assédio moral velado. As vítimas internalizam humilhação, o que eleva a rotatividade. Isso pode custar às empresas até dois salários anuais por colaborador em treinamentos e em recrutamentos.
O uso do palavrão compromete a produtividade, pois dispara cortisol e inibe foco e criatividade. Reuniões com impropérios viram campos minados, em que negociações fracassam e imagens profissionais desmoronam. Além de tudo, é, juridicamente, não recomendável, pois viola preceitos da CLT, de forma a poder gerar danos morais.
Líderes familiares e empresariais, rejeitemos a malandragem verbal que nos rebaixa ao que é bestial! Lideremos com respeito, com humanidade e com altivez.
Palavrão não.

Carlos André Pereira Nunes,
Linguista, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da ACIEG e Presidente do Instituto Carlos André.














