Uma retrospectiva particular insiste em rodar minha memória. Um triste inventário que também deve acompanhar outros goianos. São décadas e décadas entrando em casas, escritórios, salas de espera e até antessalas de poder político e econômico (porque o jornalismo faz isso com a gente, joga no mundo e obriga a andar: e essa é a nobreza da profissão).
Observo este movimento desde pequeno até os dias recentes, quando passei por trieiros e avenidas, nas eiras e nas beiras dos ambientes mais chiques aos mais simples. E, quando reviso mentalmente esse ativo memorial, encontro sempre o mesmo desenho.
E não é observação de classe ou julgamento pessoal. É uma fotografia viva de tudo que acumulo de memórias. Eu andei muito, mas não vi livros e leitores. Livro em estante, enfeitando, sempre teve. Mas era enfeite, objetos empoeirados, como um pato ou um buda sobre um prato de moedas. Era cenografia.
Quando eu trabalhava no O Popular e o tema entrava na discussão, os números mostravam que Goiás era um dos Estados com menor índice de leitura do País. De jornal, mas de livros também. A questão era grave. Em uma cidade com mais de um milhão de habitantes, havia, na época, dois ou três jornais diários com tiragens médias por edição que, somadas, não batiam 40 mil exemplares nos melhores dias. Menos de 4% da população. Pensa na contradição – isso em uma época que leitura de jornal “era o celular” de hoje. Smartphone era ficção científica.
E essa memória pessoal (que deve ser a mesma de muitos) revela que, em algumas décadas de andança, livros sendo lidos foram exceção. E, como eu lia por gosto próprio (mas pouco ou nada estimulado por outros), sentia-me (vendo à distância hoje) um ET. Estranho era ler. Para mim, estranho sempre foi o contrário.
O foco não é sermão. O problema não é moral. Ler não faz ninguém melhor; mas melhora o ambiente social, o indivíduo e o coletivo. Sua visão e suas entregas. Cada livro instala no sujeito o que, hoje, na linguagem da máquina, chamaríamos de API (orgânica): uma função que fica disponível para ser chamada depois – mesmo que seja dez anos depois. Uma faísca de uma frase de Kafka ou Machado de Assis.
Repertório, análise, capacidade de sustentar um raciocínio até o fim, de discordar sem gritar, de desconfiar de uma frase bonita ou de questionar com argumento (não estou falando de caixinha de comentário de rede social, onde todos querem pular no palco). Essa base real não se compra em curso de fim de semana ou em e-book de influenciador.
E olha o tamanho da reviravolta do mundo. A interface virou e o diálogo agora é prompt, texto, ler e entender. Prompt é redação. Em um Centro- -Oeste em que ler não foi prioridade, diversão ou recorrência da maioria, o papo agora será em comandos, e a ferramenta opera com palavras escritas. Que legal isso.
A inteligência artificial democratiza execução, não julgamento. Julgamento continua vindo da leitura, da inteligência humana (leitura é diversão que forma, informa e constrói pensamentos). Ou seja, quem não organiza um parágrafo não organiza um comando. Quem lê e não entende o que lê, não faz parte da solução – só do problema. O pobre de conteúdo acredita 100% na máquina que escreve com elegância e fica na superfície. E o segredo do jogo está na perfuração.
Ou seja: o não-leitor, que por décadas foi a regra, virou o ET. A troca de papéis se deu discretamente e, quem quiser, que fique observando. Eu não, me movimento diariamente nos rincões das novas tecnologias – que presenteiam a todos com possibilidades de ler e revisar leituras com uma agilidade e abertura fora do comum. Eu, toda semana, reviso o que não sei (kkkk) e aprendo como se estivesse no Sub-15 da vida profissional e pessoal.
Na revolução das palavras e da compreensão, viva o livro. Leia e presenteie com livros. Estimule leituras.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














