Em um dos maiores produtores de carne bovina do mundo, os argentinos perderam acesso à própria mesa. O consumo anual por habitante despencou para apenas 44,5 quilos em abril de 2026 — o menor patamar em duas décadas, muito distante dos 63,4 quilos de 2006. O dado não reflete mudança de hábito. Reflete colapso do poder de compra de um povo submetido ao experimento neoliberal mais radical da história contemporânea. O Brasil precisa olhar para esse espelho antes de outubro de 2026.
O senador Flávio Bolsonaro lançou sua pré-candidatura à Presidência durante a conferência conservadora CPAC, em Dallas, apresentando-se como continuidade do projeto político de seu pai. O programa que promete reproduzir no Brasil guarda semelhanças inquietantes com o que Javier Milei aplicou na Argentina: corte radical do Estado, austeridade fiscal acima de qualquer consideração social, desregulamentação em benefício do mercado financeiro e alinhamento automático com Washington.
Os resultados argentinos estão à vista. O primeiro ano de Milei levou o país à recessão — PIB de -3,6% —, o desemprego saltou de 5,7% para 7,6% e a pobreza atingiu 52% da população, com 14 milhões de pessoas na indigência. O fechamento de mais de 20 mil pequenas e médias empresas agravou o desemprego, enquanto a reforma trabalhista em aprovação restringe direitos de greve e atuação sindical.
O mercado financeiro comemorou. A dívida pública caiu de 155,7% do PIB em 2023 para 82,6% ao final de 2024, e o risco-país melhorou aos olhos dos investidores internacionais. Redução proporcionada pelo efeito estatístico da hiperinflação, com a inflação superando 289% ao ano, o PIB nominal em pesos disparou, reduzindo automaticamente o percentual da dívida em relação ao produto. Não é redução de dívida; é inflação disfarçada de ajuste.
Mas a inflação voltou a acelerar em 2026, chegando a 3,4% ao mês em março, a atividade econômica retraiu 2,6% em fevereiro e a produção industrial acumula queda de 6,1% nos últimos doze meses. O superávit fiscal foi conquistado. O povo, que pagou por ele, não celebra.
Enquanto os argentinos deixavam de comer carne, as exportações do produto cresceram 54% no primeiro trimestre de 2026, superando US$ 1 bilhão. Esse é o núcleo do modelo: o produtor fatura em dólar, o trabalhador não come. A balança comercial brilha; a mesa do trabalhador, não. É exatamente o que programas como o de Flávio Bolsonaro entregaria ao Brasil — um país de dimensão e complexidade social muito maiores que as da Argentina.
O eleitor brasileiro tem em mãos algo que o argentino não teve: o exemplo concreto, em tempo real, do que esse caminho produz. A Argentina não é teoria — é uma tragédia documentada mês a mês, churrasco a churrasco, fábrica fechada a fábrica fechada. Em outubro de 2026, cada brasileiro que entrar na cabine eleitoral carregará consigo essa imagem. O voto não é apenas uma escolha política. É a decisão de sentar à mesa — ou de ser retirado dela.

Marcos Freitas,
Doutorando em Turismo, mestre em Finanças e economista.













