O Brasil produziu R$ 10,9 trilhões em 2023. Ninguém de bom senso chamaria isso de economia pobre. O problema brasileiro nunca foi gerar riqueza. É o que acontece com ela depois que nasce.
No Centro-Oeste, a contradição tem endereço fixo. A massa salarial formal equivale a pouco mais de um quinto do PIB da região, e nas cidades mais ricas do agro a distância cresce. O Índice de Apropriação, que a Inteligência STG vai lançar em breve, mostra que Diamantino (MT), com R$ 261,7 mil de PIB por habitante, retém renda e consumo menores que um terço da média regional. Santa Rita do Trivelato, também em Mato Grosso, com R$ 409 mil por morador, fica abaixo de um quinto.
É riqueza de passagem: colhida aqui, contabilizada aqui, gasta em outro lugar. Não é defeito moral de quem produz. É estrutura: sede fora, lucro fora, compra fora. Mas é também um aviso. Tudo tem consequência: Cidade que produz muito e retém pouco cresce sem formar mercado, sem formar gente e sem formar futuro.
Isso é economia. Vamos lá, então, ao poder da economia. Ela corrige desigualdade com investimento, imposto, crédito e cadeia produtiva. A outra concentração de riqueza é mais difícil de tratar, porque não cabe em uma planilha de Excel. Já testamos quase tudo: prefeitos, governadores, presidentes, câmaras, assembleias e Congresso, de um lado e de outro. Nenhum se salva.
O País se contaminou, em todas as frentes de poder, por um espírito gestor que corre em um universo paralelo, ganancioso e corrupto, bem distante do coletivo.
O público virou privado nos dois sentidos da palavra. Priva o cidadão do que é dele e serve a grupos que se alternam (ou não) no poder, com práticas que se repetem, transformando o público em “seu” privado (ativo partidário ou até pessoal do gestor). A máquina pública aprendeu a servir a si mesma com uma eficiência que falta a quase todo o resto.
Diante disso, seria de se esperar uma sociedade mobilizada. Já foi assim. Há pouco mais de uma década, o brasileiro descobriu a rua e passou a cobrar transporte, saúde, escola e decência. O mesmo ocorre agora na Europa – e vejo pessoas falarem que são imigrantes, pobres e maloqueiros. Não são, são pessoas. Bom ouvir as vozes da rua, pois são essas ruas aonde passam ricos e pobres.
Nosso espírito da década passada era de que não importava a cor política de quem governava, importava o que se entregava. Foi o grande feito da sociedade civil recente. E foi abandonado. Mais ou menos abandonado, foi manipulado a mudar.
No lugar do protesto, veio a torcida. O cidadão trocou a rua pela arquibancada e passou a gritar por um polo contra o outro, com o fervor de um clássico de domingo. Camisa, bandeira e dor no peito quando o time perde. A polarização anestesia. Quem torce não cobra, defende. E quem defende o próprio lado deixa de perguntar para aonde vai a riqueza que o País produz. Quem representa o que.
O debate sobre quanto se arrecada, quanto se gasta e quem se beneficia foi trocado pelo placar. Tombamos da luta por melhorias para a militância de bufões arrogantes, que se agridem em nome dos néscios que os governam. Eles riem da nossa cara em campo (nem escondem da leitura labial) e, como boçais carentes e zumbizados, gritamos o nome deles amorosamente apaixonados. Que geração danada a nossa – credo em cruz.
O pleito de domingo não é o assunto deste texto. Mas ele impõe uma pergunta a cada eleitor, e sobretudo ao empresário e ao trabalhador, que gera ou movimenta a riqueza em questão: você vai à urna como cidadão ou como torcedor, seja lá para quem você torça?
O empresário e trabalhadores sabem que a riqueza que não circula não forma mercado, e que país que não distribui não sustenta empresa por muito tempo. Sabe, ou deveria saber, que a omissão também tem preço, e que a conta, no fim, chega. Está na hora de descer da arquibancada.
Eu quero votar. Não quero torcer.
LEANDRO RESENDE, editor-chefe Linkedin: leresende












