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ESG avança e ganha espaço na estratégia das empresas

Produtividade, inovação, gestão de riscos e reputação colocam práticas ambientais, sociais e de governança cada vez mais próximas das decisões de negócio. Em Goiás, indústria avança, mas incorporação ainda ocorre em ritmos diferentes

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
setembro 26, 2026
em Negócios
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ESG avança e ganha espaço na estratégia das empresas
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Rafael Vaz

Produtividade, gestão de riscos, eficiência energética, atração de talentos, reputação e regras mais claras de governança. A agenda ESG deixou de ocupar um espaço periférico nas organizações para interferir em decisões que estão diretamente relacionadas à estratégia e aos resultados dos negócios. Em Goiás, esse movimento avança também sobre a indústria e começa a transformar processos dentro e fora das fábricas.


A mudança está menos na criação de ações identificadas pela sigla ESG (Ambiental, Social e Governança) e mais na incorporação desses princípios à rotina das empresas. Na prática, decisões sobre pessoas, fornecedores, consumo de recursos, impactos ambientais, segurança, investimentos e continuidade dos negócios passam a ser analisadas sob uma perspectiva mais integrada.

Vinicius Rezende Basilio


Para o especialista em captação de recursos e estratégia ESG Vinícius Basílio, essa é justamente a principal transformação observada nos últimos anos. “A grande mudança que nós tivemos quando o assunto é ESG foi a lógica do método sair do ambiente de intenções e entrar um pouco mais no campo de gestão de fato”, afirma.


Vinícius Basílio acompanha essa evolução desde 2019, quando teve os primeiros contatos com o tema, durante uma pós-graduação. Naquele momento, segundo ele, ainda havia um esforço considerável das instituições para compreender o que significava possuir uma agenda ESG e, principalmente, como incorporá-la a suas estruturas.


Hoje, a discussão está mais próxima das decisões cotidianas. Gestão de riscos, cultura organizacional, pessoas, fornecedores, reputação, sustentabilidade e capacidade de geração de resultados passaram a integrar esse olhar.


Isso também muda a forma de implementar a agenda. Para Basílio, uma empresa não precisa necessariamente criar uma área exclusiva de ESG. O fundamental é perceber que diferentes decisões tomadas diariamente já possuem componentes ambientais, sociais e de governança.
“O ESG acaba trabalhando como uma lente mais transversal dentro de todas as áreas da empresa, e isso é uma necessidade que hoje eu vejo e defendo como fundamental”, explica.

Avanço em ritmos diferentes


Na indústria goiana, essa transformação já é percebida, embora não ocorra de forma homogênea. Vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Flávio Rassi avalia que o estágio de incorporação das práticas varia principalmente conforme o segmento de atuação e o porte das empresas.
“A nossa avaliação sobre a agenda ESG é que ela tem evoluído. Tem evoluído bem, mas ela evoluiu de forma um pouco desigual entre as empresas, dependendo do ramo de atividade e do seu porte”, afirma.

Flávio Rassi


Rassi relaciona parte desse movimento também às exigências associadas à concessão de crédito. Segundo ele, instituições financeiras passaram a observar aspectos ambientais, trabalhistas e sociais para reduzir a exposição a possíveis passivos das empresas tomadoras de recursos.


O atual ambiente econômico, no entanto, é apontado pelo vice-presidente da Fieg como um fator que pode limitar esse avanço. Na avaliação dele, juros elevados e dificuldades para obtenção de crédito acabam reduzindo a capacidade de investimento das empresas e, indiretamente, atingem projetos relacionados à agenda ESG.


Por outro lado, Rassi chama atenção para uma particularidade do Brasil. A legislação ambiental e as normas relacionadas à saúde e à segurança do trabalho já impõem às empresas uma série de obrigações diretamente relacionadas aos pilares ambiental e social.


Nesse cenário, é na governança que ele identifica uma necessidade maior de evolução. A Fieg, por meio de instituições como Sesi, Senai e IEL, atua no apoio às empresas em diferentes frentes, incluindo ações voltadas à estruturação dos processos de governança. “Percebemos que esse é o pilar que ainda está mais fraco, mais incipiente nas empresas”, afirma.


Rassi define governança como a construção de regras e procedimentos capazes de assegurar a continuidade dos processos independentemente de quem ocupa determinada função dentro da organização. É essa estrutura que, segundo ele, contribui para que compromissos relacionados à sustentabilidade, questões sociais, segurança do trabalho e impacto social sejam mantidos ao longo do tempo.


O ambiente regulatório aparece como outro ponto de atenção. Para o vice-presidente da Fieg, avançar não significa reduzir as proteções existentes, mas tornar as regras mais modernas, claras e direcionadas ao que efetivamente precisa ser protegido.

Da intenção à responsabilidade


A existência de compromissos públicos ou de ações pontuais, entretanto, não significa necessariamente que o ESG tenha sido incorporado à estratégia de uma organização.


Vinícius Basílio considera que um dos maiores desafios ainda está justamente em transformar o objetivo em responsabilidade. Para isso, é necessário definir quem ficará encarregado de cada iniciativa, quais recursos estarão disponíveis e como o trabalho será acompanhado. “A intenção, muitas vezes, é materializada em ações pontuais. E dificilmente em projetos que tenham ali uma carga diferenciada de compromisso ”, observa.


Outro problema é tentar abraçar simultaneamente todos os temas relacionados ao ESG. Como a agenda envolve um universo amplo de questões, Basílio defende que cada organização identifique aquelas que realmente possuem relevância para o próprio negócio e para o ambiente em que atua.
A mensuração dos resultados é a etapa seguinte, e uma das mais complexas. Para o especialista, mais importante do que contabilizar o número de ações realizadas é compreender o que efetivamente melhorou depois delas. O processo, detalha, passa por entender o problema, estabelecer prioridades, executar as ações, medir os resultados e aprender com eles antes de iniciar um novo ciclo.

ESG dentro da fábrica

A aplicação dessa lógica já pode ser observada em empresas goianas que passaram a estruturar estratégias em torno dos três pilares. Um dos exemplos é o Grupo Piracanjuba, que publica relatórios de sustentabilidade desde 2021, com informações referentes ao ano anterior.
Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Grupo Piracanjuba, Jefferson Dias de Araújo explica que um passo importante nesse processo foi a elaboração, em 2023, de uma matriz de materialidade.

Jefferson Dias de Araújo


O instrumento funciona como uma consulta aos diferentes públicos que se relacionam com a companhia. Clientes, prestadores de serviços, funcionários, órgãos de fiscalização, instituições financeiras, associações e outros grupos apresentam preocupações, demandas e temas considerados relevantes. A partir desse levantamento, a empresa define prioridades para projetos e programas ligados ao ESG.


“Para cada item do ESG, nós temos muitas iniciativas que foram criadas exatamente para que esse público fosse envolvido e para que promovamos esses programas de melhoria contínua dos processos”, afirma Jefferson.


Na área ambiental, parte das ações está diretamente ligada ao processo industrial. Entre elas estão projetos de descarbonização, tratamento de efluentes com aproveitamento de biogás e mudanças nas fontes de energia utilizadas pelas unidades fabris.


Um dos movimentos foi a substituição do gás natural por biomassa em processos de geração de energia. Segundo Araújo, em uma das unidades fabris, a mudança proporcionou redução próxima de 40% nas emissões de carbono. “Isso é muito importante e nós estamos fazendo continuamente”, relata.

Sustentabilidade e produtividade


O exemplo ajuda a mostrar como a agenda ESG começa a ultrapassar a ideia de que sustentabilidade representa apenas custo para as empresas. Em determinados projetos, ganhos ambientais aparecem associados à eficiência operacional e à redução do consumo de recursos.


No caso do biogás produzido a partir do tratamento de efluentes, por exemplo, o material pode ser aproveitado como fonte energética. Já a substituição de equipamentos por modelos mais eficientes pode diminuir a quantidade de energia necessária para produzir.


Para Jefferson, a produtividade é um dos aspectos que precisam ser considerados quando se discute ESG no ambiente industrial. A inovação também entra nessa equação. O diretor cita a modernização de equipamentos, o tratamento de efluentes com geração de biogás e tecnologias para produção de energia limpa como exemplos de iniciativas que aproximam diferentes objetivos.

O “S” da sigla


Nem só de eficiência energética e redução de emissões é construída uma estratégia ESG. O componente social coloca as pessoas no centro de outra frente de atuação das empresas.


No Grupo Piracanjuba, Araújo cita ações relacionadas à segurança do trabalho e ao ambiente organizacional. A companhia conquistou, pelo segundo ano consecutivo, a certificação Great Place to Work (GPTW) e mantém o programa Cuidado Ativo, voltado à segurança dos trabalhadores e à redução dos índices de acidentes.


Para o diretor, a maneira como a organização trata seus colaboradores também pode influenciar sua capacidade de atrair profissionais. “Quando você conquista o título de uma excelente empresa para se trabalhar, as boas pessoas, os melhores profissionais, são atraídos pela empresa”, afirma.


No pilar da governança, a companhia mantém um processo de estruturação de suas práticas internas e de seu código de ética. As diferentes frentes reforçam uma característica da agenda ESG: uma mesma estratégia pode alcançar simultaneamente processos produtivos, trabalhadores, consumidores e a própria estrutura de tomada de decisões da organização.

Investir ainda é um desafio

Se parte dessas iniciativas pode resultar em economia e ganhos de produtividade, colocá-las em funcionamento exige recursos. E o investimento inicial aparece como um dos principais obstáculos para acelerar a transformação.


“No Brasil, estamos numa situação econômica de difícil investimento. Acho que esse é um ponto que precisamos elencar. É necessário continuar investindo e tratando das inovações. Isso tem um custo inicial, mesmo que, depois, você tenha um resultado em produtividade”, afirma.


O desafio não está apenas dentro das empresas. Na avaliação do diretor, ainda é preciso avançar na capacidade do consumidor de identificar organizações com uma trajetória ESG mais madura e fazer escolhas considerando também esses atributos.


Essa decisão esbarra, porém, em uma questão econômica. Soluções ambientalmente mais avançadas podem elevar o preço final de determinados produtos. Araújo cita como exemplo embalagens com características ambientais superiores, que podem ter custo maior.

Conexões que geram oportunidades


A incorporação do ESG à estratégia também pode mudar a forma como empresas se relacionam com outras organizações e com as comunidades onde estão inseridas. Para Vinícius Basílio, conhecer de maneira mais profunda os desafios de determinado território permite identificar onde universidades, organizações do terceiro setor, empresas ou poder público podem contribuir para a construção de soluções.


Na área de captação de recursos, essa estruturação também ganha relevância. Projetos com objetivos claros, responsabilidades definidas, indicadores e dados consistentes tendem, segundo ele, a estar mais preparados para estabelecer novas parcerias.


“Eu gosto muito de enxergar o ESG como uma ponte. Ela acaba aproximando a situação real de quem tem conhecimento, de quem tem recurso ou capacidade de fato para solucionar alguma demanda”, afirma.


Basílio cita a relação entre empresas e organizações do terceiro setor como exemplo dessa complementaridade. Enquanto uma instituição pode possuir recursos ou capacidade de mobilização, outra pode reunir conhecimento do território, experiência na execução de projetos e capacidade para produzir informações e medir resultados.


Para Goiás, ele enxerga justamente aí uma oportunidade: transformar relações institucionais que muitas vezes acontecem de maneira isolada em parcerias estruturadas e orientadas por objetivos concretos.


A evolução dessa agenda indica que o ESG começa a ser menos tratado como um conjunto de iniciativas paralelas e mais como uma forma de enxergar o próprio funcionamento das organizações. Na indústria, isso aparece na energia consumida por uma máquina, na destinação de resíduos, na segurança dos trabalhadores, na relação com fornecedores, nas regras que orientam decisões e na capacidade de medir os resultados alcançados.

ESG também chega ao campo

O movimento de incorporação dos princípios ESG não está restrito ao ambiente industrial. No campo, produtores também começam a estruturar práticas ambientais, sociais e de governança dentro das propriedades. Em Goiás, uma consultoria oferecida pelo Senar busca apoiar esse processo a partir de um diagnóstico amplo do negócio rural.


O Senar Serviços ESG prevê acompanhamento durante 18 meses. Segundo o consultor de ESG do Senar, Ricardo Carneiro, o trabalho começa com um levantamento da situação da propriedade baseado no documento ABNT PR 2030.


“A primeira visita é um diagnóstico geral da propriedade. Nesse momento, verificamos todos os aspectos, conforme a norma, tudo que se enquadra dentro da parte ambiental, social e também de governança”, explica.


Para realizar o levantamento, a consultoria utiliza um diagnóstico composto por mais de 400 perguntas. Carneiro define o processo como um “raio-x da propriedade como um todo”. Após essa primeira etapa, uma nova visita é realizada para apresentar os resultados ao produtor e começar a elaboração de um plano de ação.
É quando aparecem problemas que, em alguns casos, antecedem a própria discussão sobre adoção de práticas mais avançadas de ESG. Segundo Carneiro, ainda existem propriedades com necessidade de adequações relacionadas principalmente às exigências legais nas áreas ambiental e social.


“Percebemos que muita coisa, principalmente na parte de ambiental, de social, nos quesitos legais, ainda está bem aquém do que deveria ser para a gente começar a falar de ESG propriamente dito”, afirma.


Por isso, a primeira fase do plano de ação concentra esforços em questões legais que podem representar riscos para o produtor. Em etapas posteriores, a consultoria passa a trabalhar temas como elaboração de relatórios, estruturação da governança e organização dos processos internos.
Ao final dos 18 meses, o diagnóstico é aplicado novamente para verificar a evolução. O próprio consultor reconhece que o período é curto diante da dimensão das mudanças necessárias, mas considera suficiente para iniciar o processo.


“Sabemos que é muito pouco para o ESG estar estruturando dentro de uma propriedade. Mas a gente planta a semente para tentar mostrar essa nova prática.”

Risco menor, gestão melhor


Mesmo com pouco tempo de implantação, Ricardo Carneiro afirma que já consegue observar resultados entre as propriedades atendidas. Um dos principais está na identificação antecipada de riscos. “Todas as propriedades que eu tenho atendido, tenho alertado muito como a previsibilidade de riscos. Estamos conseguindo mitigar grande parte dos riscos”, diz.

Ricardo Carneiro


Entre as mudanças já realizadas estão adequações de infraestrutura, atendimento às normas trabalhistas e de segurança do trabalho, regularização ambiental e gerenciamento de resíduos.


Os ganhos nem sempre aparecem imediatamente como aumento de faturamento. Em determinados casos, o resultado está justamente em evitar que irregularidades provoquem despesas futuras, como autuações. “Já tem resultados. A gente não contabiliza isso como resultado financeiro, mas um resultado de não desembolso financeiro futuro”, explica.


A experiência mostra que, embora indústria e campo tenham realidades distintas, a incorporação do ESG passa por desafios semelhantes: diagnosticar problemas, reduzir riscos, organizar processos e estabelecer mecanismos capazes de acompanhar a evolução.


No meio rural, a chegada dessa agenda acrescenta uma nova camada à gestão das propriedades. Mais do que adotar uma sigla, o trabalho começa pelo básico: conhecer o negócio em profundidade, corrigir inconformidades e criar condições para que práticas ambientais, sociais e de governança façam parte da rotina do produtor.

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