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Início Cooperativismo

Hiperinflação resiste mais um ano: o último

Caderno especial dos 70 anos da OCB/GO apresenta a virada da hiperinflação para uma economia estável, os efeitos para o cooperativismo e a volta de um goiano ao Banco Central

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
agosto 29, 2026
em Cooperativismo
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Hiperinflação resiste mais um ano: o último
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Leandro Resende 

ANO 38 – 1993 – Hiperinflação resiste mais um ano: o último

O ano de 1993 seria o último da era da instabilidade monetária brasileira. Naquele ano, a inflação corroía perto de 30% ao mês, e o país ainda digeria a renúncia de Fernando Collor, consumada em dezembro de 1992. O governo Itamar Franco começava a preocupar pela excessiva troca de ministros da Fazenda. 

Em Goiânia, porém, o dia 17 de fevereiro tinha outro clima. Na sede da Avenida Jamel Cecílio, a assembleia das cooperativas goianas escolhia um novo comandante.

Antonio Carlos Borges foi eleito presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG), com Milson Santana de Freitas na vice-presidência, encerrando o ciclo iniciado em junho de 1990 por Antonio Chavaglia. Borges já tinha um histórico de trabalho prestado ao cooperativismo. Foi ele que, três anos antes, sentara diante da ministra Zélia Cardoso de Mello para tentar reverter os efeitos do confisco do Plano Collor sobre o campo goiano. Nada. Ele voltou de Brasília com a lição de que o cooperativismo precisava de força própria.

Momento histórico da economia brasileira, entre 1993 e 1994: Brasil vai superar a hiperinflação.
Na OCG, Antonio Carlos assume para ficar três anos, até 1996

Essa convicção deu o tom do primeiro ano de mandato. Em 1993, a OCG obteve parecer favorável para atuar como sindicato patronal, o que a tornaria, no ano seguinte, na primeira entidade de todo o sistema cooperativista brasileiro a transformar-se em sindicato. Na prática, a organização goiana deixava de ser apenas fórum de representação para se tornar interlocutora legal das cooperativas nas questões trabalhistas e patronais, um passo que Estados maiores ainda estudavam e que Goiás saiu na frente.

O ambiente nacional ajudava. Em outubro, o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras, Dejandir Dalpasquale, foi nomeado ministro da Agricultura por Itamar Franco: pela primeira vez, um dirigente saído do movimento cooperativista sentava-se à mesa da Esplanada. 

No mesmo ano, Roberto Rodrigues, um velho conhecido dos goianos, que anos antes esteve na inauguração da sede (em 1988), foi eleito presidente da Aliança Cooperativa Internacional para as Américas.

Nos balcões das cooperativas goianas, o cotidiano era resistir: comprar insumo de manhã porque à tarde o preço seria outro, segurar o caixa em saca de soja. Foi nesse cenário que, em maio, Fernando Henrique Cardoso assumiu a Fazenda e começou a desenhar, em silêncio, o plano que mudaria tudo.

O ministro Ricupero e o presidente Itamar Franco mostram cédulas do real, a moeda que deu certo

ANO 39 – 1994 – Plano Real e a adaptação à estabilidade monetária

Depois do confisco do dinheiro das famílias e empresas e da resistência da hiperinflação, o dia 1º de julho de 1994 marca uma virada. Neste dia, o brasileiro acordou com dinheiro novo no bolso. Depois de meses convivendo com a URV (uma ‘moeda’ de transição que a equipe econômica criou para a estreia da nova moeda, que não era a primeira e vinha com uma certa desconfiança), o real chegou prometendo o que nenhum dos planos anteriores cumprira: estabilidade. E entregou.

Em Goiás, por anos, o produtor correra contra a inflação para não ver a safra virar pó quando tirava o extrato bancário. O dinheiro perdia valor de um dia para o outro. Com a estabilidade monetária, passou-se a fazer contas em uma moeda que, amanhã, valia o mesmo que hoje. Era uma novidade muito esperada e, para o cooperativismo, era também um teste inteiramente novo.

Porque a inflação, paradoxalmente, escondia ineficiências. Com preços subindo todo dia, ganhava-se no giro financeiro o que se perdia na gestão. O real acabou com esse ganho artificial. 

As cooperativas goianas (agropecuárias, de crédito, de serviços médicos ou de consumo) precisaram reaprender a operar com margens reais, custos visíveis e juros que, mantidos altos para sustentar a âncora cambial, encareceram o custeio da safra 1994/1995. E a reeducação precisou ser rápida – aquele ditado já existia: “trocar o pneu com o carro andando”. Com tempo, deu tudo certo.

A OCB-GO orientava suas filiadas nessa adaptação e pregava: a estabilidade era conquista, mas cobrava profissionalização.

E o movimento respondia crescendo e fortalecendo a interiorização já percebida em outros segmentos anos antes. Em 21 de novembro de 1994, nasceu a Unimed Caldas Novas, levando o cooperativismo médico à cidade das águas quentes. Era a quarta singular do ramo saúde em solo goiano, depois de Goiânia (1978), Catalão (1984) e Rio Verde (1992). A interiorização da saúde cooperativada avançava na mesma velocidade do turismo que transformava o sudeste do Estado. 

No plano nacional, o Sistema Unimed promulgou, em 1994, a sua Constituição, fruto de anos de estudos técnicos, mais um sinal de que o ramo amadurecia institucionalmente no exato momento em que se multiplicava em Goiás.

Com o sucesso da estabilidade, em outubro, o País elegeu Fernando Henrique Cardoso como presidente, o ministro da Fazenda que apadrinhara o Plano Real. Para o campo goiano, a pergunta que ficava era dura: numa economia estável e aberta, quem financiaria a produção? A resposta passaria, mais uma vez, pelo Banco Central, presidido novamente por um goiano cuja história esta série conhece desde o primeiro capítulo, e vamos falar mais a seguir.

ANO 40 – 1995 – O filho do tesoureiro da UCEG reassume o Banco Central

Em junho de 1995, o economista goianiense Gustavo Jorge Laboissière Loyola assumiu pela segunda vez a presidência do Banco Central do Brasil (BC), convidado pelo ministro Pedro Malan, em nome do presidente Fernando Henrique Cardoso. O goiano foi presidente entre 1992 e 1993, voltando ao BC para um segundo mandato, de 1995 a 1997. 

Para o cooperativismo goiano, a notícia tinha sabor de reencontro. Gustavo é filho de Cleomar de Barros Loyola, o advogado que, em 1956, aceitou ser o primeiro tesoureiro da UCEG, precursora da OCB/GO, presidia a Cooperativa de Consumo dos Servidores do Ipase e, mais tarde, comandaria a OAB seccional Goiás. Cleomar era irmão do desembargador Clenon de Barros Loyola. 

O tesoureiro pioneiro da UCEG, que guardou os primeiros cofres do cooperativismo goiano, via agora o filho guardar, pela segunda vez, a moeda de todos os brasileiros – e justamente a moeda que dera certo depois de décadas de instabilidade monetária.

Ao centro, ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o goiano e presidente do Banco Central, Gustavo Loyola (1º à esquerda): Reunião para discutir o socorro aos bancos

A missão de Loyola era das mais duras da história recente do BC: reequilibrar um sistema bancário que perdera, com o fim da inflação, as receitas fáceis do dinheiro parado. No fim do ano, o governo lançaria o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer) para reestruturar os bancos. 

Mas, antes disso, a crise chegou ao campo. Os juros altos que sustentavam o real esmagaram o produtor endividado: o custeio contratado a taxas de inflação virou dívida impagável em moeda estável, e a inadimplência rural explodiu, atingindo em cheio as cooperativas agropecuárias e de crédito em Goiás como em todo o Centro-Oeste.

A resposta veio em 29 de novembro de 1995, com a Lei nº 9.138: a securitização das dívidas agrícolas. O texto autorizou o alongamento, por no mínimo sete anos, das dívidas de crédito rural contraídas até junho daquele ano, e incluiu expressamente, ao lado dos produtores, as suas associações, condomínios e cooperativas, inclusive as de crédito, abrangendo operações do FCO, fundo constitucional que irrigava o Centro-Oeste. 

Para o Sistema OCB, que se mobilizara pela renegociação, era o reconhecimento de que salvar o produtor exigia salvar a estrutura cooperativa que o financiava e comercializava a sua safra. Em Goiás, a OCB/GO, presidida por Eduardo Pereira de Andrade, acompanhou de perto o enquadramento das filiadas nas novas regras, um trabalho técnico e de alta relevância para a nova realidade.

Sindicato das cooperativas em Goiás foi pioneiro no País

Enquanto o Banco Central e a economia como um todo enfrentavam a ressaca da estabilização, a OCG promovia mudanças reais e de impacto. Em agosto de 1993, o advogado Lourival Francisco de Almeida dera parecer favorável à conversão da OCG em sindicato patronal – o que ampliava a representatividade. Aprovada por unanimidade em Assembleia Geral, a mudança foi oficializada em 11 de março de 1994, com a publicação do aval no Diário Oficial da União: nascia o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Goiás, primeira entidade do sistema no País a conquistar o título. 

Em junho daquele ano, veio a homologação do Código Sindical pelo Ministério do Trabalho e, em 1995, o primeiro ano completo deste novo desafio. A entidade passou a defender as cooperativas em ações contra sindicatos que acionavam associadas sem representá-las e a sentar-se à mesa das negociações trabalhistas. 

Não foi fácil: representação sindical era assunto restrito, faltava gente especializada e faltava dinheiro. Mas a diretoria sabia que “força política é muito importante no cooperativismo”, como recordaria Antonio Carlos Borges, que foi presidente da OCB/GO por um mandato e vice por outros quatro ciclos. O sindicato patronal dava ao cooperativismo goiano, em plena tempestade do crédito rural, uma voz institucional e uma missão que o consolidou.

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