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Início Perfil

Perfil: Handerson Pancieri

“Se o jornalista está sendo justo e correto, não tem problema cobrar, criticar, mas sem esculhambar”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
agosto 29, 2026
em Perfil
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Perfil: Handerson Pancieri

Fotos: Arquivo pessoal

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Rafael Mesquita

Muito antes de o dia clarear na capital goiana, o despertador de Handerson Pancieri toca, pontualmente, às 3h40 da madrugada. Enquanto a maioria dos goianos ainda dorme, o jornalista cumpre um ritual: sai pelas ruas escuras de Goiânia rumo aos estúdios da TV Anhanguera para apresentar o telejornal Bom Dia Goiás. Às 4h, já está no trabalho. É nessa calada da noite que começa a ganhar vida o rosto que, há décadas, leva leveza, seriedade e afeto ao amanhecer de milhares de lares no estado.

Com 36 anos de profissão e 32 de TV Anhanguera, Handerson se tornou um dos rostos mais icônicos e queridos da televisão goiana. Mas para entender a força de sua conexão com o público, é necessário ir além das bancadas modernas e do terno impecável; é preciso olhar para a sua sensibilidade. 

A paixão pela profissão nasceu da infância. O menino que devorava leituras e guardava uma curiosidade incansável pelo mundo transformou o desejo de contar histórias em estilo de vida. A mãe, professora, o incentivou a ler desde cedo. “Meu pai assinava o jornal O Popular, eu acordava lia as historinhas em quadrinhos e fazia as palavras cruzadas. Depois, comecei a ler as notícias em voz alta em casa para a minha família”, recorda. 

Foi nesse período que uma curiosidade despertou o pequeno Handerson. “Eu me questionava: como esse povo do jornal sabe das coisas antes da gente?”, diverte-se. Os pais, Laudir e  Haydée, logo o explicaram, o que gerou ainda mais curiosidade pela profissão. Na oitava série, já havia decidido que seria jornalista. “Falava isso para os meus professores. Eles pegavam no meu pé para que eu melhorasse o português e a redação”, conta. 

O sonho da dona Haydée era que o filho fizesse Direito, o que foi possível conciliar com Jornalismo nos primeiros anos. A opção pelo segundo curso ocorreu quando iniciou o período de estágio, feito na Rádio Universitária e nas TVs Serra Dourada e Brasil Central. 

Com a graduação na Universidade Federal de Goiás (UFG), foi contratado, em 1990, para ser repórter da TV Serra Dourada. Na emissora, afiliada do SBT, o jovem jornalista trabalhou com experientes profissionais da imprensa no Estado. Entre eles, Cassim Zaidem, Ione Glória, Paulo Beringhs e Enzo de Lisita. “Me ajudaram e ensinaram muito”, afirma.

Nessa época, além de repórter da noite na emissora, tornou-se editor das matérias dos colegas durante o dia. “Para mim, foi fantástico. Me ajudou a ter uma noção maior da reportagem de rua e do trabalho na TV”, conta. Algumas matérias foram marcantes nesse início de carreira. Entre elas, a cobertura em rede nacional da queda de um avião na fazenda de Íris Rezende Machado, em Guapó. Ainda acompanhou, em um lixão no interior do Estado, famílias e crianças pulando cercas para buscar o que comer no lixo descartado pela sociedade. “Essa cena me provocou um profundo choque de realidade, deixando uma cicatriz emocional até hoje”, compartilha. 

Em 1994, um convite que mudaria a vida do profissional. O diretor de jornalismo da TV Anhanguera, Jackson Abrão, e o chefe de redação, Alziro Zarur, o chamaram para integrar a equipe da principal emissora do Estado, afiliada da Rede Globo. Na reportagem, fazia a cobertura dos mais diversos assuntos: polícia, política, cidade. “No plantão de fim de semana, fazia até esporte”, brinca. Em um desses trabalhos, entrevistou a banda Mamonas Assassinas, em 1995. A matéria bem humorada e divertida foi feita pouco antes de uma apresentação do grupo paulista em Goiânia. 

Trabalhava em diferentes horários. Com a experiência que já tinha em edição de matérias, auxiliava também nessa função. Nesse período, a TV Anhanguera decidiu aumentar o jornal do almoço e Handerson foi convidado a coordenar essa mudança, tornando-se editor-chefe. Após a emissora demitir o então apresentador, Carlos Magno, passou a ser o âncora do jornal. “Foi uma responsabilidade muito grande. O Carlos é uma referência para mim, me espelhei muito no conhecimento e na percepção da realidade dele”, conta. 

Foram mais de dez anos na apresentação da edição do almoço do Jornal Anhanguera. Grande parte deles, ao lado da apresentadora Lilian Lynch. Os dois marcaram época no jornalismo goiano, construindo grande proximidade com o público, sobretudo pela conexão entre eles e de ambos com os telespectadores. Após esse período, voltou para a reportagem da TV Anhanguera. Pouco depois, retornou para a apresentação. Dessa vez, do Bom Dia Goiás, função que ocupa há mais de dez anos. 

O despertar dos goianos

O telejornal começa às 6h da manhã e segue até às 8h30. Além de apresentador, Handerson acumula a função de editor. A pesada rotina não é obstáculo. “Sempre preferi trabalhar cedo. É o período em que minha criatividade está melhor”, destaca. Mesmo assim, há alguns sacrifícios que Pancieri “tira de letra”. “Todos os dias, durmo às 10h da noite. Costumo ir a eventos sociais à noite, mas vou embora mais cedo. O fato de eu não beber bebidas alcoólicas também me ajuda muito a estar inteiro no outro dia”, explica. 

Em 36 anos de carreira, esta é a fase em que o jornalista se sente mais exigido profissionalmente. “Acontece muita coisa ao vivo, notícias que nós temos que contar até que o repórter chegue ao local”, explica. São operações policiais, problemas de trânsito, incêndios. Tudo isso logo no início da manhã. “Me exige o improviso, o próprio público espera que eu me posicione diante de alguns fatos”, acredita. A rotina inclui um longo preparo, com a leitura, na noite anterior, de toda a previsão de assuntos que serão trazidos pelo jornal. 

A ancoragem responsável e firme no telejornal é dividida com a jornalista Suelen Reis.

Pancieri admite que, com o advento das redes sociais, muitas vezes é preciso um cuidado maior com o que vai ser dito, mas sem medo de desagradar a qualquer pessoa. “Se o jornalista está sendo justo e correto, não tem problema cobrar, criticar, mas sem esculhambar”, avalia. 

As mudanças do jornalismo

Mais de três décadas de profissão, o proporcionaram presenciar de perto a revolução sofrida pelo jornalismo televisivo. Se nas primeiras apresentações na década de 1990, ele ficava todo o jornal sentado, apenas lendo as laudas com as notícias, atualmente, caminha pelo estúdio durante o telejornal, opina sobre os fatos e tem uma maneira mais informal de levar a informação ao telespectador. “Hoje, é mais dinâmico. O fato aconteceu e a imagem já chega na hora por WhatsApp”, opina. 

O advento da internet foi fundamental. Antes, fazer uma participação ao vivo da rua exigia todo um aparato técnico e profissional, mas, atualmente, isso é possível com bem menos equipamentos ou apenas com o uso do celular. “Para quem começou no jornalismo com máquina de escrever, hoje edito vídeos em um tablet, algumas vezes com o jornal no ar”, conta. 

A maior rapidez do “novo jornalismo” exige um maior cuidado com o conteúdo transmitido. “É preciso muita perspicácia e critério para divulgar as notícias que chegam tão facilmente. Nisso, a experiência ajuda muito a distinguir o que é verdadeiro do que é falso”, acredita. 

Mesmo com o crescimento da procura pelas informações nas redes sociais, a percepção é que, durante a cobertura de grandes fatos, o público prefere os veículos tradicionais. “Nessas ocasiões, a nossa audiência cresce, porque as pessoas querem ter certeza de que aquele fato realmente aconteceu”, afirma. 

Apesar de todas as transformações na profissão, o jornalista acredita que uma coisa nunca mudou. “É preciso conhecer o lugar onde vivemos, andar pela cidade, conversar com as pessoas”, defende. Em várias ocasiões, Pancieri admite que se hospeda no Centro de Goiânia aos finais de semana apenas para saber o que se passa no local. “Ando de ônibus, vou ao comércio, converso com as pessoas. Isso me ajuda muito na profissão”, destaca.

Para manter a longevidade na televisão, é preciso saber dialogar com todos os públicos. Além de gostar do que faz. “Escolhi a profissão certa para minha vida. Com essa certeza, busco aprender, inclusive com os mais jovens”, pondera. Pancieri afirma que a ideia é sempre manter o contato na redação da TV com os colegas de profissão para entender as novas linguagens e conceitos. Outra contribuição decisiva para a carreira vem do companheiro, Carlos Eduardo Faria, o Kadu. 

Família e a vida fora das telas

O casal está junto há 21 anos. Kadu também é jornalista, atua com colunismo social e assessoria de imprensa. “Ele é mais antenado do que eu com a Internet e me atualiza sobre o que está viralizando, o que as pessoas estão comentando no mundo virtual. Isso me ajuda a crescer profissionalmente”, diz. 

Os pais e irmãos também foram um “porto seguro” no apoio ao longo da trajetória. Nascido em Belo Horizonte, em 1969, Handerson chegou a Goiânia com a família quando tinha apenas oito anos de idade. O pai trabalhava com seguros e havia sido transferido para Goiás. 

Handerson e o irmão mais velho, Harison, eram incentivados desde cedo a buscar o conhecimento com o acesso ao que havia de melhor em material de pesquisa e leitura. “Minha mãe comprava aquelas enciclopédias enormes e lá em casa se tornava o ponto de encontro dos nossos colegas para o trabalho de escola”, recorda. Além dos dois, os pais tiveram, já em Goiânia, o filho mais novo, Luciano Pancieri. Seu Laudir faleceu no ano passado, aos 84 anos de idade. 

Cinema, eventos com os amigos, restaurantes e bares são parte da rotina de Handerson fora das telas da TV Anhanguera. Viajar com o companheiro Kadu também está entre as programações favoritas nos momentos de lazer. “Adoramos ir a Caldas Novas, Corumbá, Brasília e Rio Quente. Mas nosso lugar preferido é Pirenópolis”, compartilha.

Cuidar do lado espiritual ainda é uma das prioridades. Handerson é palestrante em vários centros espíritas de Goiânia e frequenta semanalmente dois deles, Casa de Polyana, no Parque Amazônia, e Mensageiros da Caridade, no Parque Anhanguera. “Converso com as pessoas, ouço histórias, levo muito da vivência do meu dia a dia à luz do evangelho. Essa fé é fundamental e me sustenta emocionalmente.” 

A fé também o motiva com os trabalhos sociais que realiza. “Por meio dos centros espíritas, chego mais fácil a pessoas que realmente precisam. Oferecer ajuda ao próximo é mostrar gratidão diante do mundo espiritual”, conclui.    

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