Leandro Resende
ANO 34 – 1989 – Goiás organiza seu próprio sistema de crédito cooperativo
Enquanto o Brasil se preparava para votar, em novembro, na primeira eleição presidencial direta desde 1960, o cooperativismo goiano dava um passo silencioso, mas estrutural. Em 27 de julho de 1989, representantes das cooperativas de crédito rural do Estado se reuniram em assembleia geral e fundaram a Cooperativa Central de Crédito de Goiás (Cocecrer-GO).
Nascia ali o primeiro sistema de segundo grau do crédito cooperativo goiano: uma central que passaria a articular, orientar e prestar serviços às cooperativas singulares filiadas, em vez de deixá-las operar cada uma por conta própria. A Cocecrer-GO mudaria o nome para Credigoiás Central, em 1995, e, posteriormente, tornou-se o Sicoob Goiás Central, em 2005, integrando-se à marca nacional do Sicoob.
O momento não era gratuito. O País vivia a inflação galopante que o fracassado Plano Verão não conseguira conter, e a corrida presidencial, a primeira com voto direto em quase três décadas, mobilizava expectativas de todos os lados sobre o rumo da economia.


Em Goiás, o governo de Henrique Santillo caminhava para o fim de mandato administrando um Estado que crescia na produção agrícola, mas sufocado pelo mesmo aperto de crédito que castigava o Brasil inteiro.
Foi justamente esse aperto que deu sentido à nova Central. Ao unir forças, as cooperativas de crédito rural goianas ganhavam peso para negociar, capilaridade para atender o produtor no interior e uma estrutura organizada que a Constituição de 1988. Aliás, ao libertar o cooperativismo da tutela estatal, permitia ao setor sonhar em maior escala.
Outro fator importante para Goiás e para a região, que refletiria diretamente no desenvolvimento regional, foi que neste mesmo ano, o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) foi regulamentado, abrindo uma nova linha de recursos para o desenvolvimento produtivo da região. Era mais uma peça que se encaixava no tabuleiro do crédito rural goiano.
Sob a presidência de Eduardo Pereira de Andrade, a Organização das Cooperativas de Goiás (OCG) acompanhava esse movimento como articuladora natural do setor, testemunha de um cooperativismo que deixava de ser apenas representado e passava a se organizar em rede.
ANO 35 – 1990 – Pânico: confisco e a extinção do Banco do Cooperativismo
Uma nova década se abre, com grandes desafios, sem faltar aquela boa dose de insegurança que a economia brasileira teve de sobras até então. Em 21 de março de 1990, doze dias depois de tomar posse, o presidente Fernando Collor de Mello extinguiu o Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC) como parte do pacote de choque que também confiscou a poupança dos brasileiros. Para o cooperativismo de crédito, a notícia caiu como um baque duplo: da noite para o dia, as cooperativas perdiam o banco que compensava seus cheques e sustentava sua operação financeira – e precisavam, às pressas, negociar convênios com outras instituições, principalmente o Banco do Brasil, só para continuar funcionando.
O Plano Collor mergulhava o País numa recessão abrupta, com o crédito represado e a atividade econômica paralisada por meses. Em Goiás, essa turbulência nacional chegava direto à porta da Cocecrer-GO, fundada havia menos de um ano: a Central recém-criada, que nascera para dar escala e solidez ao crédito rural cooperativo goiano, via-se obrigada a reorganizar do zero sua estrutura de compensação bancária, num momento em que o produtor rural mais precisava de estabilidade.



A Organização das Cooperativas de Goiás (OCG), sob Eduardo Pereira de Andrade, atuava como ponte entre as cooperativas do Estado e as novas regras que Brasília impunha quase sem aviso. Era um mercado em pânico, em todas as pontas, do consumidor ao produtor, do cooperado ao dirigente cooperativista.
Era um teste de resiliência: o mesmo texto constitucional que, em 1988, prometera autonomia ao cooperativismo agora via essa autonomia posta à prova por uma canetada presidencial que atingia o sistema financeiro como um todo: cooperativas incluídas, ainda que não fossem alvo direto da medida.
Mesmo no aperto, o cooperativismo goiano não recuou: manteve suas cooperativas em operação, buscou novos arranjos institucionais e seguiu tratando o crédito rural como função que não podia parar, custasse o que custasse.














