No começo da década passada, um vento muito forte varreu comportamentos sedimentados da superfície mental dos pobres humanos. Conceitos e certezas giraram no olho do furacão como casas ou vacas desavisadas. Esse fenômeno teve o sobrenome banda larga e, como nome, internet. Essa danada, no celular (com uso democratizado e ampliado pela tal da ‘alta velocidade’), fez estragos ou ajustes em todos os setores da economia, da sociedade, dos governos e das famílias.
Já correu uma década, o furacão acalmou e podemos mapear o novo mundo sem as crenças e descrenças do passado. Mas não tem descanso, pois os ventos da inteligência artificial (IA) devem levantar vacas, carros e mentes no giro do furacão que se forma nada tímido em vários cantos do planeta.
Essas fraturas do tempo estarão nos livros da grande história – se tiver livro no futuro – e serão páginas vitoriosas. Não será uma história miúda, tímida ou de rodapé. Mas fiquemos com o efeito do que aconteceu nesta década, e amanhã falamos do que virá na próxima.
Quem viveu os dois lados (antes e depois do smartphone – tipo um A.S. e D.S.) consegue perceber esse divisor de águas da sociedade. Não foi uma lei, não foi uma crise, não foi sequer uma escolha coletiva. Foi um aparelho que cabe na palma da mão, chegando como telefone e virando a vida das pessoas. Virou empregos, diálogo, namoro, renda, derrota e vitória.
O celular não inventou comportamentos. Ele os acelerou, escancarou e, sobretudo, institucionalizou. Em dez anos, operou e desenhou aquilo que os antropólogos levam gerações para descrever: uma reorganização dos pactos relacionais. A forma como nos percebemos diante do outro mudou. A forma como medimos poder, dependência, presença e ausência mudou. E o mais interessante é que essa mudança não foi anunciada. Ela simplesmente aconteceu, por dentro, como acontecem todas as transformações que duram.
Mas o celular, aparelho criado para ligar pessoas, é, antes de tudo, um isolador.
Essa é a chave que muita análise tecnológica recusa enxergar. Não porque seja uma tese ingênua, mas porque é incômoda demais. Uma geração inteira foi moldada dentro desse isolamento, não contra ele, mas dentro dele. Aprendeu a construir identidade, autonomia e linguagem numa tela individual, na qual as regras são da própria plataforma e o mundo exterior é uma notificação que pode ser ignorada. Quando essa geração saiu do quarto e entrou no mundo das relações adultas, trouxe o tabuleiro junto. E virou ele de cabeça para baixo.
Essa trombada de gerações pode ser vista e contada em mesas de bar em vários movimentos. Vou citar um deles e vou embora, fecho a conta – as outras “re-visões” são com vocês. As entrevistas de emprego são uma situação clássica (de hoje). O candidato que entrevista.
O mercado de trabalho de trabalho é uma transição na vida, um momento construído e esperado. Era de um jeito A.S., e agora, D.S., formatou. No ritual, que por décadas funcionou como cerimônia de poder unilateral, inverteu-se a lógica de maneira silenciosa e definitiva.
O candidato, hoje, entra na sala e entrevista o entrevistador. Coloca as suas condições sobre a mesa antes mesmo de ouvir as da empresa. Quer saber sobre flexibilidade de horário, sobre presença remota, sobre propósito, sobre cultura. Não é arrogância, como dizem os antigos, é formação. É a expressão natural de alguém que cresceu num ambiente em que o acesso é imediato, a comparação é constante e a lealdade é negociada.
O contrato de trabalho vem depois da conquista – e quem está procurando é o contratante. O celular não criou esse candidato, mas criou o ambiente em que ele se desenvolveu: de mobilidade absoluta, oferta infinita, rejeição ao que não responde rápido. E leva essa lógica para o emprego, para o contrato, para o compromisso. O tabuleiro virou, e a empresa que não percebeu ainda está jogando xadrez num mundo que já migrou para outro jogo.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














