O bom jornalismo não é um manual de como fazer amigos. É mais sobre revelar o que está por trás da cortina ou embaixo do tapete do que comer canapé e tomar vinho caro no saguão principal. A história do Brasil tem grandes movimentos e abalos trazidos primeiro por matérias, insumo de investigações e até renúncias ou impeachments. É um legado que lhe garante a inédita inimizade dos dois polos e seus arrebanhados, que são capazes de dormir com o diabo antes de apertar a mão de jornalista. Compram o discurso de aversão e jogam pedra, mas pouco sabem o porquê de estarem atacando.
Mas, quanto a estes, pouco importa – eles passam (hoje ou amanhã), porque têm fragilidades, debilidades e/ou prazo de validade histórica. O desafio é maior e foi muito bem exposto, nesta semana, por Arthur Sulzberger, em Marselha.
Ele, editor do New York Times, disse o óbvio com elegância: as empresas de inteligência artificial estão usando o jornalismo como matéria-prima gratuita para construir impérios bilionários. E avançou na crítica, chamando de parasitária a prática de treinar modelos com conteúdo original sem autorização nem compensação.
Na mesa, um debate que se abre não só sobre dinheiro. O que está em jogo ultrapassa a disputa contratual entre gigantes de mídia e plataformas de tecnologia. O que está em jogo é a natureza do próprio conhecimento que circulará nos próximos anos e quem será responsável por produzi-lo. Ou manipulá-lo, caso as máquinas vençam.
Há uma ironia perversa no centro desse debate. A IA, por definição, não investiga. Ela organiza, sintetiza e reproduz com fluência admirável o que já foi produzido por humanos. Quando um modelo de linguagem responde a uma pergunta sobre política econômica brasileira ou sobre o agronegócio goiano, está recombinando décadas de jornalismo especializado.
Está servindo, com nova embalagem e um tempero manipulado para agradar aos olhos e paladar, o trabalho de repórteres que foram a campo, que entrevistaram fontes, que levantaram dados, que perderam fins de semana decifrando balanços e atas de audiência.
E esse trabalho está sendo transferido gratuitamente para o ativo mais valioso da nova economia. Roubando dados para fazer o suco da IA, diria.
No Brasil, e no Centro-Oeste em particular, essa equação tem consequências que dificilmente aparecerão nos painéis do Congresso da WAN-IFRA em Marselha. Não estamos falando de grandes grupos de mídia com estrutura jurídica para processar a OpenAI. Estamos falando de portais regionais, rádios AM, jornais interioranos que sobrevivem com três repórteres e uma planilha de anunciantes locais.
São essas redações que cobrem a reunião da câmara municipal, o desvio na licitação do transporte escolar, a seca que destrói a lavoura e não vira notícia nacional. São elas que formam o tecido mínimo de verdade contábil em cidades onde nenhuma plataforma global vai colocar repórter.
Se a IA reduz o tráfego para veículos ao priorizar respostas diretas, como apontou Sulzberger, o impacto proporcional sobre os pequenos é devastador. O New York Times tem advogados, tem marca global, tem processo aberto na Justiça americana contra a OpenAI. O portal de Anápolis ou a rádio de Rio Verde não têm nenhum desses recursos.
Sulzberger defendeu o uso de IA nas redações com critérios editoriais e supervisão humana. É a posição sensata de quem precisa equilibrar crítica e realidade. Mas há uma distinção que precisa ser dita com mais clareza: usar IA para ser mais eficiente na produção jornalística é diferente de deixar que a IA substitua a função social do jornalismo.
Eficiência operacional é bem-vinda. O problema começa quando o leitor passa a consumir sínteses geradas por modelos no lugar de reportagem original e começa a achar que está bem informado.
A planície tem seus encantos. É mais fácil de percorrer, mais confortável de habitar. A IA entrega planícies com elegância: respostas completas, bem construídas, com tom apropriado. O que ela não entrega é a perfuração. O furo que só acontece quando alguém decide ir mais fundo do que o algoritmo recomenda, do que o trending topic sinaliza, do que o ciclo jornalístico permite.
O jornalismo que sobreviverá a essa transição não será o que copiar a velocidade das máquinas. Será o que insistir em ser humano o suficiente para ir onde as máquinas não vão e voltar com o que elas não sabem contar.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














