A palavra “malandro” carrega uma ironia histórica profunda. Sua origem remonta ao termo italiano malandrino – que significa vagabundo, patife ou salteador –, uma junção do latim malus (“mau”) com antigas raízes germânicas. No Brasil do século XIX, o termo foi cruelmente utilizado para estigmatizar escravizados recém-libertos, indígenas e mestiços que sobreviviam na informalidade, rotulados como “improdutivos” pela elite sob a ótica colonial. Já no século XX, o conceito se transformou em símbolo cultural de resistência, especialmente no Rio de Janeiro: o malandro virou a figura boêmia, o sambista astuto que usava a ginga e a criatividade para driblar a exclusão social e a falta de oportunidades.
Se no passado a expressão serviu tanto como rótulo de criminalização quanto como identidade cultural, o futuro reserva uma nova atualização etimológica. Certamente, especialistas e etimologistas do amanhã cravarão o termo adicionando um forte lastro aos políticos brasileiros contemporâneos. Afinal, de malandragem em malandragem, nossa classe política vai conquistando índices olímpicos da patifaria nacional. Usar o termo para perseguir vulneráveis hoje seria uma heresia; aplicá-lo ao Congresso Nacional, contudo, tornou-se uma possibilidade real e conceitual.
O exemplo mais recente, a da semana, dessa ginga institucional é a dita ‘mini e esdrúxula’ reforma eleitoral, que prevê mudanças na prestação de contas dos partidos. Em uma manobra escandalosa, partidos políticos de diferentes espectros se uniram para parir um mecanismo sob medida para a própria impunidade.
O tal Projeto de Lei 4822/25 limita as multas eleitorais por contas desaprovadas de partidos ou candidatos a R$ 30 mil, impede o penhor de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) por qualquer motivo e permite ao candidato disparar mensagens com propaganda eleitoral de forma automatizada para telefones previamente cadastrados.
O objetivo principal? Livrá-los de punições ou, no mínimo, aliviar as consequências pelo mau uso do fundo político e partidário. Estamos falando de um montante que já é um insulto à realidade do País: uma bagatela de quase R$ 6 bilhões de dinheiro público, drenada de setores vitais para sustentar estruturas que pouco ou nenhum serviço prestam à sociedade.
A votação na Câmara dos Deputados foi o ápice do esculacho democrático. Sem debate público real, sem vergonha e, sintomaticamente, sem qualquer defesa veemente – afinal, ninguém teve a coragem de ir à tribuna argumentar a favor do indefensável –, os parlamentares votaram pelo retrocesso. Mais uma para a lista de vergonha dos deputados.
É inadmissível que uma proposta dessa magnitude avance calada, nas sombras do parlamento, que deveria ser a casa do povo, como se o voto secreto pudesse blindá-los do julgamento moral da população.
Agora, a matéria segue para o Senado Federal para completar o ciclo da vergonha alheia. Os senadores têm em mãos a oportunidade – e a obrigação – de desamarrar essa excrescência jurídica e moral. Se o Senado se omitir, chancelará a ideia de que o Brasil possui duas leis: uma rígida para o cidadão comum e outra, elástica e malandra, para quem assina o orçamento.
A sociedade brasileira não pode mais aceitar passivamente essa malandragem oficializada, o ‘desenrola’ dos malandros. É hora de abrir o jogo, expor os patifes e exigir que a política retome o mínimo de decência. Aos senadores, nossos e dos outros Estados, como vão votar?
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.













