Há uma diferença profunda entre falar e ter voz. Falar é somente um de emitir som, sem se preocupar, inclusive, se alguém realmente ouve. Ter voz é um ato consciente. Ele nos leva a sustentar convicções e a ter poder de decisão. Para nós, mulheres, essa distinção é ainda mais significativa. Ao longo da história, muitas vezes, foi facultado à mulher falar, desde que não contrariasse, não liderasse, não escolhesse por si – nunca com o poder de decisão.
Por isso reafirmo, com serenidade e com convicção: ter voz é decidir.
A verdadeira voz feminina não se mede pelo volume, mas sim pela firmeza e pela consistência. Sem a necessidade permanente de confronto, mas sim da capacidade de escolhas lúcidas, responsáveis e dignas. Uma mulher tem voz quando reconhece o seu valor, honra os seus princípios e se recusa a entregar aos outros a condução da sua própria vida.
Há algo de profundamente nobre na mulher que conquista seu lugar não por concessão, mas por competência. Não por pena, mas por capacidade. Não por privilégio, mas por merecimento.
Em Why Voice Matters (Por que a voz importa, em tradução literal do título do livro, não publicado no Brasil), o sociólogo britânico Nick Couldry nos lembra que a voz é uma dimensão essencial da dignidade humana, porque representa a possibilidade de participar da vida como sujeito, e não como espectador. Essa reflexão torna-se ainda mais valiosa quando aplicada à mulher: ter voz é não aceitar o silêncio imposto, mas também compreender que a palavra só alcança a sua plenitude quando se converte em direção, em posicionamento, em decisão.
Sou casada com um homem extraordinário e bem-sucedido, que ao contrário de disputar comigo e me deslegitimar, me estimula a ser a uma profissional de altíssima performance, sem que, para isso, deixe de lado minha feminilidade. Além disso, tenho uma filha linda, para quem tenho a responsabilidade ser paradigma.
Em mais de 25 anos de casamento, meu marido e eu construímos tudo juntos, – desde a nossa família à nossa empresa, cujo core business é a comunicação. Fundamos o maior Instituto de Língua Portuguesa, de Redação e de Comunicação de Alta Performance do Centro-Oeste do Brasil: o Instituto Carlos André. E nem sempre foi fácil.
Para uma mulher empresária, ter voz é ter poder de decisão ativa nas definições financeiras, nos rumos estratégicos e na construção de legados. Voz não é passividade, embora, às vezes, ter voz tem que ser unir visão e diligência, doçura e firmeza, sensibilidade e discernimento, em prol de um bem comum. Cuidar sem se anular, liderar sem endurecer, prosperar sem perder a essência.
Talvez por isso eu admire tanto Maria, mãe de Jesus. A sua grandeza não esteve em discursos monumentais, mas na profundidade de sua fé, na coragem de sua entrega e na firmeza de seu propósito. Há mulheres cuja força não se anuncia, se revela. E essa é, talvez, uma das formas mais elevadas de autoridade: a de quem sabe quem é, a quem pertence e porque permanece em pé.
O legado que desejo para as mulheres da minha geração e, sobretudo, para a geração da minha filha, é que não confundam voz com ruído, nem liberdade com ruptura vazia. Que compreendam que protagonismo não se recebe, se assume. E que a verdadeira força de uma mulher está na clareza com que decide, na integridade com que sustenta suas escolhas e na excelência com que honra o espaço que conquistou.
Ter voz é decidir. Decidir com sabedoria. Decidir com responsabilidade. Decidir com fé. Porque a mulher que tem voz não apenas fala. Ela constrói, prospera, inspira e transforma.

Marina Godoy Marques Nunes,
Empresária, engenheira, vice-presidente da Câmara da Mulher da Acieg e diretora-executiva e cofundadora do Instituto Carlos André e da Academia da Comunicação.














