A participação feminina em cargos de liderança no Brasil apresenta avanços, mas ainda enfrenta limites nos níveis mais elevados de decisão. O relatório Women in Business 2024, da Grant Thornton, indica que mulheres ocupam aproximadamente 37% das posições de liderança no País. Já levantamento divulgado pela revista Exame, com base em estudo da Diversitera, especializada em diversidade, equidade e inclusão (DEI), aponta que elas representam cerca de 35% da alta liderança, considerando gerência executiva, diretoria e C-Level.
No setor imobiliário, em que a presença feminina historicamente esteve concentrada em áreas administrativas e comerciais, incorporadoras da capital têm registrado maior participação de mulheres em cargos estratégicos e na condução de processos de sucessão familiar.
Liderança e sucessão estruturada por governança
Na FR. Incorporadora, o percentual supera a média nacional de liderança feminina apontada nas pesquisas, já que mais de 50% de mulheres compõem a estrutura administrativa e de liderança da empresa.
Atualmente, 62% do quadro administrativo – incluindo o administrativo de obras – é composto por elas. Considerando os níveis de diretoria, gerência e coordenação, que reúnem profissionais do administrativo e das obras, a participação chega a 67% dos cargos.
A empresa também vivencia um processo de sucessão familiar estruturado. A segunda geração é formada por três irmãs, sendo duas atuantes na companhia: Lara Rassi, diretora-executiva, e Angel Rassi, diretora de estratégia. Formadas em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ambas ingressaram na empresa há oito anos com foco em governança e compliance, passando por diferentes áreas antes de assumirem funções de liderança nas frentes comercial, de marketing e estratégica.

“O processo de sucessão na FR. foi organizado com planejamento e definição clara de papéis. Nossa entrada ocorreu de forma gradual, com base em governança e conhecimento das áreas, antes da assunção formal de funções executivas. Hoje, a participação feminina nas posições estratégicas mostra um movimento construído ao longo dos anos, que vai de encontro à organização interna da empresa”, afirma Lara Rassi.
Segundo a incorporadora, o modelo de governança, iniciado em 2013, foi construído com base na Teoria dos Três Círculos, de John Davis, definindo papéis e estabelecendo um processo gradual de preparação para a sucessão. “A implementação de práticas de governança permitiu separar as dimensões família, propriedade e gestão, trazendo maior previsibilidade às decisões. A presença feminina na liderança não é circunstancial, mas resultado de preparação técnica e acompanhamento das rotinas do negócio ao longo do tempo”, destaca Angel Rassi.
O tema foi apresentado como estudo de caso na Escola de Administração de Empresas (EASP) da FGV, em São Paulo, e a atuação da segunda geração da FR. contribuiu para a criação do Comitê FGV Alumni Governança e Empresas Familiares, além da imersão “Empresa Familiar como Opção de Carreira”, voltada à graduação em Administração da instituição.

Presença na gestão e continuidade geracional
Com mais de quatro décadas de atuação no mercado imobiliário, a Consciente Construtora e Incorporadora conta com mulheres à frente de áreas e departamentos internos, em funções de coordenação e gestão. Hoje, as lideranças internas da incorporadora são majoritariamente femininas, com presença expressiva de profissionais em áreas estratégicas como engenharia, planejamento e controle de obras e orçamentos. Criada por Ilézio Inácio, engenheiro civil, a empresa também tem, atualmente, integrantes da segunda geração atuando ao lado do fundador.
Nesse contexto, uma das lideranças é Camila Inácio, diretora de empreendimentos e filha do presidente. Formada em Arquitetura e Urbanismo, Camila reúne mais de 18 anos de experiência em projetos residenciais verticais e mais de 20 anos de atuação no mercado imobiliário, com trajetória que inclui estudos de viabilidade, concepção, aprovação legal, desenvolvimento executivo e acompanhamento até a entrega dos empreendimentos. Nas equipes diretamente vinculadas à diretoria de empreendimentos, cerca de 80% das lideranças também são ocupadas por mulheres, o que mostra uma presença feminina crescente em funções técnicas e de gestão dentro da incorporadora.

“Minha trajetória na Consciente foi construída a partir da atuação técnica no desenvolvimento de projetos, acompanhando diferentes etapas do processo imobiliário. Hoje, ao assumir uma posição de liderança na empresa, também percebo como a presença feminina em cargos estratégicos contribui para ampliar perspectivas dentro do setor. No nosso caso, a sucessão está associada à continuidade de princípios que estruturaram a empresa, combinada à atualização de processos e à leitura das transformações do mercado imobiliário”, afirma Camila.
Fortalecendo a presença feminina no mercado
Com duas décadas de trajetória em um setor tradicionalmente masculino como a construção civil, a advogada e engenheira civil Patrícia Garrote construiu uma carreira marcada não apenas pela atuação técnica, mas também pelo incentivo à presença feminina em posições estratégicas. Diretora da Dinâmica Incorporadora — empresa com 42 anos de história em Goiânia — e integrante da diretoria da Ademi-GO em 2024, ela liderou a criação do Núcleo de Mulheres do Mercado Imobiliário (Nummi). A iniciativa nasceu com dez participantes e foi idealizada para fortalecer a atuação feminina no setor, promovendo um espaço de troca de experiências, geração de conexões e desenvolvimento de lideranças que atuam tanto nos canteiros de obras quanto em cargos executivos e na gestão de empresas.Para Patrícia, um dos principais desafios de atuar em um ambiente historicamente dominado por homens é a conquista de credibilidade e autoridade em um contexto em que a liderança feminina ainda é minoria. “Credibilidade e autoridade não vêm com cargo, exigem constância na entrega dos resultados e de posicionamento”. Mesmo após 20 anos de atuação, ela avalia que o preconceito persiste — ainda que de forma mais velada, principalmente nos cargos de mais alta gestão.

Esse cenário reforça, em sua visão, a importância de iniciativas que apoiem e fortaleçam mulheres em suas carreiras. “O Nummi representa a concretização desse propósito: um ambiente colaborativo, rico em networking e voltado ao crescimento profissional e pessoal. O núcleo também reconhece as múltiplas jornadas femininas, reunindo mulheres que conciliam carreira com papéis como mãe, filha e esposa, sem abrir mão da autoestima e do autocuidado”, acredita Patrícia.














