Por Rafael Mesquita
Em tempos de retorno do Mundial de Motovelocidade para Goiânia, é impossível não falar de um dos principais pilotos de moto da história de Goiás, Roberto Boettcher. No motocross, ele foi tricampeão brasileiro, bicampeão latino-americano e o único piloto do país a fazer a temporada completa do mundial da categoria.
Boettcher respira o universo da moto desde a sua infância. Nasceu em 1957, em sua casa, que ficava em cima da oficina e loja de motos do pai, na Rua 2, entre as avenidas Goiás e Tocantins, no Centro de Goiânia. Além de mecânico e proprietário do estabelecimento, seu Erwino Boettcher era piloto de motovelocidade e havia chegado de São Paulo poucos anos antes para tentar a vida em Goiás. “Eu era criança e já ficava de olho nas motos que apareciam lá na loja. Aprendi a andar de lambreta aos dez anos de idade”, recorda.
O empreendimento cresceu e se tornou a maior concessionária de moto da Yamaha no Brasil (Mil Yamaha), proximidade com a marca que iria ajudar a carreira de Roberto anos depois. O interesse pelo veículo de duas rodas fez com que o jovem, com apenas 14 anos, iniciasse a vida de piloto, participando de corridas de rua que eram realizadas no Centro de Goiânia. Pouco depois, em 1974, esteve na inauguração do novo autódromo da capital, quando conquistou o título goiano da categoria Força Livre.
Mas na época, o grande piloto da família era o irmão mais velho, Paulo Boettcher Neto (falecido em um acidente de moto em 1980). Roberto o acompanhava nas corridas do campeonato brasileiro de motocross para auxiliá-lo fora das pistas. Em uma etapa em Belo Horizonte, um dos pilotos da equipe do irmão se machucou nos treinos e não pôde correr. Sobrou para quem? Para o Roberto, ou somente Beto, como era conhecido. Com 16 anos, ele disputou três corridas, ficou em terceiro, segundo e venceu uma delas. “Ali nascia de fato o piloto Roberto Boettcher”, afirma. Nessa temporada, ainda disputou mais duas etapas e terminou o campeonato nacional na terceira colocação nas categorias 125 e 250 cilindradas.
No ano seguinte, Roberto teve a ajuda do pai para disputar toda a temporada e participou do trio de pilotos que formava uma das equipes. O irmão Paulo era o número 14 e, o amigo Dalton, o 16, foi aí que ele optou por correr com o 15, que marcou toda a sua carreira. Devido a boa relação familiar com a Yamaha e aos bons resultados na pista, Roberto começou a ter o apoio da fábrica para disputar a competição. Resultado: desbancou o grande piloto de motocross do País na época, Nicanor Bernardi, do Paraná, e se tornou campeão brasileiro de 125 e 250 cilindradas.
Era hora de buscar um título internacional. Com o apoio financeiro do pai e do Governo de Goiás, correu a temporada do campeonato latino-americano 125 cc em etapas no Brasil, Venezuela, Argentina e Uruguai. Em 1976, tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar uma competição internacional de motocross.
Ao chegar em Goiânia, a comemoração teve um fato cômico que ele se lembra muito bem. “Cheguei à cidade e não vi ninguém me esperando, ninguém sabia que eu estava aqui. Meu pai me buscou e fomos para casa. Depois que fui entender a situação. É que foi preparado um grande evento pelo Governo do Estado para me receber no outro dia. Aí, me levaram para o aeródromo de Goiânia, onde peguei outro avião rumo ao aeroporto Santa Genoveva, como se estivesse chegando naquele momento. Depois, desfilei em um caminhão dos bombeiros acompanhado de motos e carros até ser recebido no Palácio das Esmeraldas pelo governador Irapuan Costa Júnior”, diverte-se.






Em 1977, foi o primeiro e, até hoje o único, brasileiro a se aventurar disputando uma temporada inteira do Mundial de Motocross. Levou para a Europa cem mil dólares em dinheiro e o amigo José Augusto Toledo, um engenheiro mecânico de Minas Gerais que entendia muito da parte técnica e falava inglês e francês. “Fomos com a cara e a coragem”, afirma. A maior dificuldade foi a comunicação com o Brasil. “Quando terminavam as corridas, eu ficava quatro horas esperando para fazer uma ligação para Goiânia e contar ao meu pai que estava vivo”, brinca. Ao receber a ligação com a notícia, seu Erwino entrava em contato imediatamente com a imprensa local e nacional para divulgar o desempenho do filho nas corridas.
Outra adversidade era o clima. Acostumado a correr com o calor de 40 graus no Brasil, a primeira corrida na Bélgica já foi um choque de realidade: apenas três graus na pista. Mesmo assim, os resultados foram muito bons para a primeira temporada. “O Mundial tem cem pilotos inscritos e só largavam 40. Eu me classifiquei em todas as etapas entre os 20 melhores”, conta. Entre os maiores resultados: oitavo, nono e décimo primeiro lugares.
A questão financeira comprometeu a continuidade do projeto e Roberto teve que retornar ao Brasil. “Para andar de fato na frente em um Mundial, a gente precisava de mais dois anos para estarmos completamente adaptados. Mesmo assim, considero que foi uma vitória disputar a temporada inteira em uma equipe goiana que não era de fábrica como a dos principais pilotos”, avalia.
De volta ao País, Boettcher foi o primeiro a trazer uma moto importada legalmente para o Brasil, já que a importação do veículo era, até então, proibida pelo governo. Como seu pai era dono de concessionária da Yamaha, o caminho foi mais fácil e, em 1978, conseguiu a moto direto do Japão. Andou pouco na temporada do campeonato brasileiro daquele ano, mas, em 1979, vieram mais duas conquistas de respeito. “Fiz a pré-temporada nos Estados Unidos e estava muito bem preparado. Conquistei o tri brasileiro e o bi latino-americano nas 125 cilindradas”, destaca.
A carreira ainda reservou seis títulos paulistas, o bicampeonato goiano e do Centro-Oeste e o pior acidente da vida: em um treino em São Paulo no ano de 1980. O seu baço se rompeu, Roberto teve hemorragia interna e ficou cinco dias desacordado em uma UTI. “Acordei com a minha mãe entrando no quarto. O médico disse que, a partir dali, eu teria dois aniversários, porque eu havia nascido de novo”, emociona-se. Apenas 40 dias depois, o piloto voltou às pistas para correr uma etapa do campeonato paulista. “Venci a corrida e levei o trofeu para o médico como forma de agradecimento”, recorda.
A decisão de parar de correr ocorreu em 1989, durante uma etapa do campeonato goiano de motocross em Goiânia. Boettcher teve uma queda no início da prova e fez uma corrida de recuperação. “Jogaram uma lata de cerveja que acertou o meu peito. Aquilo me magoou muito. Venci a prova e decidi que não iria correr mais”, explica. Roberto conta que nesse período ficou dez anos sem ir a uma corrida de moto. “Percebi que deixei de ser mocinho para ser bandido. Se eu ganhasse, era obrigação, se eu perdesse era gozação”, lamenta.
O sonho do Mundial em Goiânia
Na década de 1980, quando ainda era piloto da Yamaha, Roberto soube que a equipe oficial da marca no Mundial de Motovelocidade necessitava de um local com altas temperaturas para treinar. “Me contataram e eu logo viabilizei a pista do autódromo de Goiânia. Vieram juntos com a Michelin (marca de pneus) e ficaram uma semana por aqui”, afirma. A notícia da confiabilidade, segurança e condições da pista logo se espalhou entre as outras equipes. Pouco depois, a Honda e a Kagiva também decidiram realizar treinos com os seus pilotos oficiais em terras goianas.
Roberto havia se tornado o administrador do autódromo a convite do Governo do Estado, quando o governador Henrique Santillo anunciou a vinda do Mundial para Goiânia. Pela primeira vez, a principal categoria de motovelocidade do mundo estaria no Brasil. As corridas ocorreram em 1987, 1988 e 1989.
“Foram os três maiores eventos que o Estado já teve. O povo foi se dando conta da proporção da prova quando a cidade começou a encher. De repente, tinha aquele tanto de moto na rua e tudo virou uma grande loucura. Foi um marco para Goiás”, recorda.
Quase 40 anos depois, Goiânia volta a viver a emoção de receber a categoria (de 20 a 22 de março). Novamente com a participação direta do ex-piloto, que desde 2014, ocupa o cargo de gerente do Autódromo Internacional Ayrton Senna. “Ter tudo isso de volta é o sonho da minha vida realizado. Nasceu aqui dentro essa ideia. Vai ser um marco para o Brasil, porque vamos voltar a ser reconhecidos como o País da moto”, acredita.
Segundo Boettcher, o evento será capaz de atrair outras competições internacionais do esporte a motor para Goiânia. “Estou com a agenda lotada para o autódromo até o Natal, todo mundo quer correr na pista do mundial de moto, inclusive os carros. O nosso autódromo é o melhor da América Latina e um dos melhores do mundo”, avalia.




Família e a paixão pelo esporte a motor
Roberto é casado há 25 anos com Maria Elizabeth Bueno Boettcher, companheira de vinhos, viagens e vida. Do primeiro casamento, tem Roberto Boettcher Filho, 44 anos, que construiu a carreira profissional, longe das pistas, mais precisamente na zootecnia.
Quando era criança, o filho acompanhava Roberto pelas corridas e gostava do esporte. “Ele tinha o dom, mas nunca me pediu para iniciar no motocross. O pai não pode gostar mais que o filho e obrigá-lo a correr. É um esporte que mata”, afirma. Mesmo assim, a velocidade está no sangue da família. “Uma das nossas diversões juntos, hoje em dia, são as nossas corridas de Kart. Mas corremos só por brincadeira mesmo”, explica.














