A diferença de produtividade entre trabalhadores de países como Estados Unidos e Brasil costuma ser apresentada de forma simplista, quase como se estivesse ligada apenas ao esforço individual. No entanto, produtividade é um fenômeno sistêmico. Ela nasce da combinação entre capital humano, ambiente institucional, infraestrutura, incentivos econômicos, tecnologia disponível e regras do jogo. Quando se observa esse conjunto de fatores, torna-se claro por que o trabalhador americano, em média, produz muito mais do que o brasileiro — não porque trabalha mais, mas porque o sistema ao seu redor trabalha a favor da produtividade.
Um dos pilares centrais dessa diferença está na educação. Embora os Estados Unidos também convivam com desigualdades educacionais, o acesso a escolas de melhor qualidade, a alternativas educacionais diversificadas e a um ensino mais conectado às demandas do mercado é significativamente maior. O resultado aparece de forma objetiva em avaliações internacionais: o Brasil segue mal posicionado em indicadores como o PISA, especialmente em matemática e leitura, habilidades básicas para qualquer atividade produtiva.
Outro fator determinante é a infraestrutura. Produtividade não é apenas produzir mais, mas também desperdiçar menos tempo e energia. Nos Estados Unidos, estradas, sistemas logísticos, fornecimento de energia e conectividade digital funcionam, em geral, de maneira mais eficiente. Isso permite que o trabalhador foque na atividade que gera valor. Horas desperdiçadas diariamente se acumulam e impactam diretamente a eficiência econômica do país.
O acesso à tecnologia também pesa de forma decisiva. Tecnologia barata, atualizada e amplamente disponível aumenta a produtividade do trabalho humano. Automação, softwares, equipamentos modernos e processos digitais ampliam a capacidade de entrega de cada profissional. No Brasil, a elevada carga tributária, a reserva de mercado e o alto custo de importação fazem com que a tecnologia de ponta seja privilégio de poucos. Trabalhar com bons equipamentos, aqui, muitas vezes vira luxo.
Há ainda um componente cultural e econômico importante: a mentalidade em relação ao dinheiro e à geração de valor. Nos Estados Unidos, predomina a lógica de que salários maiores são consequência direta da criação de mais valor para alguém — para o cliente, para a empresa ou para a sociedade. No Brasil, frequentemente, salários compatíveis com alta produtividade são vistos como exploração, e não como recompensa. Essa distorção gera resistência à meritocracia, reduz incentivos à eficiência e enfraquece a relação entre desempenho e remuneração.
O ambiente jurídico e trabalhista também influencia fortemente a produtividade. A alta litigância no Brasil cria um clima de insegurança permanente para quem empreende e contrata. Cada vaga aberta pode se transformar em um risco jurídico futuro.
Por fim, as próprias leis trabalhistas ajudam a explicar parte da diferença. Em economias mais flexíveis, é comum que profissionais acumulem funções, desenvolvam múltiplas competências e sejam melhor remunerados por isso. No Brasil, a mesma prática frequentemente é interpretada como “desvio de função”, gerando passivos trabalhistas e processos. O resultado é um sistema que pune a eficiência e desestimula a versatilidade.
A conclusão é clara: a produtividade do trabalhador não pode ser analisada isoladamente. Ela é reflexo direto do ambiente em que esse trabalhador está inserido. Melhorar a produtividade no Brasil exige reformas profundas — na educação, na infraestrutura, no acesso à tecnologia, na cultura econômica, no sistema jurídico e nas leis trabalhistas. O verdadeiro desafio está em transformar o sistema para que ele deixe de travar o esforço humano e passe, finalmente, a potencializá-lo.

André Ladeira,
Empresário e executivo com mais de 25 anos de experiência em liderança estratégica, multipropriedade, hotelaria e investimentos, cofundador do AMT Group e Diplomata Civil da Jethros Internacional.














