Antes de qualquer avaliação precipitada sobre minha opinião, este não é um artigo bairrista, pois não sou nordestino, não tenho conhecimento de qualquer ascendente direto meu que veio do Nordeste e, como muitos goianos, conheço só as praias da região.
O reforço da afirmativa na abertura deste editorial se dá porque, sempre que o Nordeste está em pauta, o viés de análise costuma ser sobrecarregado de preconceito, implicância gratuita ou até xenofobismo disfarçado. Não ser nordestino me isenta pelo que vou escrever a seguir.
Dito isto, seguimos. Se você é daqueles que, quando alguém fala de Nordeste, o que vem à sua cabeça, no automático, é Bolsa Família, pobreza, fome, seca ou uma lista de termos pejorativos e até impublicáveis, é preciso ampliar suas hashtags. Sugestões: centro de excelência em educação, matriz da cultura nacional e referência em produção de tecnologia.
Por partes: Educação. Os números e fatos dizem por si: Estados do Nordeste lideram olimpíadas internacionais e nacionais de Matemática, Física e Química – tanto no ensino médio e quanto fundamental. Na da Unicamp, em 2025, o Nordeste conquistou a maioria das medalhas de ouro, prata e bronze em História – 55 das 81 medalhas.
Em 2024, também na Olimpíadas da Unicamp, foram 1,3 mil estudantes de todo o País. Ao final, o ranking de medalhas dos Estados: Ceará, 19; Bahia, 15; e, Pernambuco, 14. Lá em quarto, São Paulo e Minas Gerais, com sete; em oitavo, empatado com outros Estados, Goiás, com duas.
Para finalizar e mudar de assunto, nesse último Enem, só sete redações tiraram nota 1.000. Das setes, seis foram feitas por nordestinos. Instituto de elite de São Paulo, como o ITA, mapeiam e estudam o Nordeste – que mudou o mapa da educação em exatas no Brasil.
Agora, a cultura nacional. Consegue imaginar se tirássemos todos os nordestinos do portfólio da cultura brasileira, seja da música, da literatura, do cinema, do teatro ou das artes plásticas? Só essa pergunta já liquida esse tema.
É até dispensável citar nomes, mas vou listar rapidamente, sabendo que ficará incompleta: Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Alceu Valença, Dominguinhos, Chico Science, Caetano, Gil, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Patativa do Assaré, Raul Seixas, Wagner Moura, Renato Aragão, Belchior, Arlete Sales, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Chico Anísio, Gal Costa, Ferreira Gullar, Itamar Vieira Júnior, Fagner, Tom Cavalcante, Ivete Sangalo, Nisia Floresta, Glauber Rocha, Kleber Mendonça Filho, e a lista não para se eu não parar.
Em tecnologia, o que tem no Nordeste? A região se consolidou como um dos maiores polos de tecnologia e inovação do País, com um crescimento de 3.497% no número de startups em menos de dez anos e já concentra 23,5% das startups brasileiras, superando o Sul e chegando, aos poucos, ao Sudeste.
Tecnologia já representa 8% do PIB nordestino – e ameaçando passar, em breve, o turismo (9,8%). Recife, com o Porto Digital, e Fortaleza, o 2º maior hub de cabos submarinos do mundo, lideram. Mas não é só isso: Liderança em energias renováveis (15% das startups da área),GovTechs (39% das brasileiras) e Data Centers verdes.
Subestimar o Nordeste já não é aceitável – e soa como preconceito, burrice ou desinformação. Misturar, com qualidade, educação, tecnologia e cultura é um suco transformador. Que o diga a então discriminada China, com sua população miserável, analfabeta e esfomeada há menos de um século, e que hoje dá as cartas do jogo de poder global. Essa revolução invisível do Nordeste, que ainda está longe de minimizar a pobreza, entrega mais do que promete. E ainda tem muita margem para entregar. Esperem e verão.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














