Noutro dia, eu estava em um shopping, quando um jovem empreendedor me abordou sobre um assunto muito curioso. Disse-me assim: “Professor Carlos André, está ficando chato esse excesso de informalidade nos atendimentos nas lojas. O vendedor acaba de falar comigo aqui como se eu fosse amigo dele há anos. Chato isso. O senhor poderia falar sobre isso”.
Pois bem, ouvirei o conselho do colega e falarei.
Como linguista que sou, obviamente não condeno certas informalidades nas relações profissionais. Isso faz parte das teorias de adequação linguística e, do ponto de vista da neurociência, há explicações ligadas à intencionalidade, principalmente no Brasil, um país em que a cordialidade e o “calor humano” são importantes (questionável isso, mas são).
A realidade é o “jeitinho brasileiro”, em doses intencionalmente certas, facilita as negociações e constrói confiança. Intelectual e moralmente, eu tenho severas críticas a isso, mas é assim…
Ocorre, porém, que isso já está passando dos limites. O colega do shopping tem razão. O excesso de informalidade tem gerado prejuízos graves à hierarquia, à produtividade e à credibilidade profissional. Esse jovem empresário que me abordou no shopping, por exemplo, não comprou na loja, porque se sentiu incomodado.
É hora de refletir sobre isso, especialmente em Goiás, em que o empreendedorismo local mescla tradição de pessoalidade e modernidade profissional.
O excesso de informalidade gera erosão da autoridade e do respeito mútuo. Quando chefes tratam subordinados como “amigos de bar”, de forma a chamá-los pelo apelido ou por gírias excessivas em reuniões, dilui-se a distinção entre papéis.
Estudo da FGV sobre dinâmicas empresariais no Brasil mostrou que equipes com hierarquia mal definida têm 30% mais conflitos internos. Um exemplo disso é uma agência de publicidade, em São Paulo, que adotou o uso exagerado de “mano” e de emojis em e-mails corporativos. Os sócios perceberam insubordinação dos funcionários com o líder. Resultado disso? Perda de clientes. Ninguém quer negociar com uma empresa em que há insubordinação.
Além disso, o excesso de informalidade compromete a imagem profissional externa. Em negociações, o que parece “descontraído” para um pode soar como amadorismo para outro. Um relatório da McKinsey de 2023 sobre o mercado latino-americano alerta: empresas com comunicação híbrida (muito informal) perdem 25% mais contratos internacionais. Durante a Copa do Mundo de 2022, a CBF enfrentou críticas por tuítes excessivamente coloquiais de dirigentes. Isso foi visto como falta de seriedade por patrocinadores globais, como reportado pela ESPN Brasil.
Por fim, o excesso de informalidade afeta o desenvolvimento individual. Jovens profissionais, habituados a redes sociais, confundem like com endosso profissional, o que prejudica a ascensão profissional.
A solução?
Equilíbrio: preserve o “você” em contextos íntimos, mas use “o senhor/a senhora” ou nomes completos em e-mails e em reuniões formais.
Em Goiás, onde o agronegócio e o comércio demandam precisão, adotar o “formal leve”, a linguagem clara e sem excessos fortalece relações duradouras.
Que tal resgatar a elegância sem rigidez?
Profissionalismo não mata afeto; excesso de informalidade, sim, mata credibilidade.

Carlos André Pereira Nunes,
Linguista, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da ACIEG e Presidente do Instituto Carlos André.














