O valor do trabalho é algo importante para ser debatido, pois tem efeito amplo no comportamento social. E, com isso, vou navegar na desordem silenciosa de como o Brasil organiza esse valor (e o desvalor) das profissões. Não é um decreto, não está em nenhuma lei, mas opera com a eficiência de uma política de Estado: atualmente, as carreiras que mais remuneram são, com magras exceções, as que menos exigem formação sistemática, e as que mais formação exigem são, com frequência, as que menos pagam.
E, seguindo o raciocínio, a política é o caso mais escandaloso. Não nasceu como profissão, pois, em teoria, é um serviço público temporário, uma delegação de representação; não seria uma trajetória de carreira. Mas, no Brasil, tornou-se exatamente isso: uma das ocupações mais bem remuneradas do país e das menos sujeitas a qualquer critério objetivo de competência. Não há prova, não há diploma obrigatório, não há exame de suficiência. Basta ter o dom da articulação, boa argumentação e um nicho de votos fechado (ou negociado). E o tal do mandato vira um ativo financeiro, renovável, acumulável e cada vez mais lucrativo.
O mecanismo ficou mais evidente à medida que as emendas parlamentares cresceram sem proporcionalidade nem transparência. Hoje, um deputado federal controla mais recursos de execução direta e discricionária do que a maioria dos ministros do Poder Executivo. Não é retórica: é a estrutura real do orçamento. As salas de espera dos ministérios esvaziaram. As dos gabinetes parlamentares transbordam de prefeitos, lobistas, entidades e ONGs, todos com uma proposta que, por acaso dos acasos, atende bem ao interesse do parlamentar e a causa que o proponente representa. A melhor proposta leva. A política virou balcão, e o balcão virou carreira de topo.
Mas a política não está sozinha nessa galeria. Ao lado dela, no imaginário brasileiro de ascensão, estão o jogador de futebol, o influenciador digital e o músico. Quatro carreiras com uma característica comum: quando se chega ao nível mais alto, a riqueza é quase automática, ostensiva e midiática.
Detalhe é que nenhuma delas têm como obrigatoriedade décadas de estudo para começar a faturar. O talento precoce, a viralização, o gol ou o voto substituem a graduação, mestrados, doutorados e os anos de construção técnica que outras profissões impõem como condição mínima de entrada.
De verdade, o problema é o que esse modelo comunica para dentro das famílias. Pais adoecidos pela obsessão do capital – e o Brasil é pródigo em fabricar esse tipo de pai em série – que transfere para os filhos o deslumbre com o que aparece, não com o que sustenta. A criança que cresce vendo o salário do professor tratado como piada de corredor e o contrato do jogador como capa de revista aprende, antes de qualquer escola, qual carreira o País admira de verdade.
E assim, sem qualquer cerimônia, professores, enfermeiros, jornalistas, contadores, engenheiros e até médicos e advogados (em sua maioria, não aquela minoria que prospera) ficam do lado errado do imaginário. São profissões que exigem muito, prometem pouco em termos de visibilidade e remuneram, no geral, mais próximo da linha da estabilidade do que da riqueza. Formam a classe média e a média baixa, em geral. Não são adoradas. Os seus salários não viram notícia.
A desordem, no fundo, é de valores. Um País que organiza seus maiores prêmios financeiros em torno de profissões que dispensam formação rigorosa – e paga as menores recompensas entre quem mais estudou – não está apenas distribuindo mal seus estímulos. De fato, está ensinando, a cada geração, que o esforço intelectual é um caminho secundário. E quando a política vira topo de carreira, essa lição deixa de ser metáfora e se torna estrutura. Pensemos.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














