Quem não viu a trend “SERÁ?”, nas redes sociais de alguns grandes nomes e até de umas grandes empresas brasileiras, não está na Terra. Provavelmente, está em visita à Lua, junto aos tripulantes da Artemis II…
A viralização (como muitos gostam de dizer) foi impressionante…
Quem entrou na trend conseguiu audiência. Mas…
Será? (rsrs) que conseguiu ou manteve credibilidade?
Coincidentemente, estou lendo um livro extraordinário “A Fábrica de Cretinos Digitais”, escrito pelo pesquisador Michel Desmurget. O livro trata do assunto deste artigo. Recomendo a leitura, porém…
Voltemos aqui. Vamos responder à questão.
Bem, o conceito de trend (tendência, em inglês) refere-se a um conteúdo que tem grande alcance nas redes sociais, (principalmente no TikTok e no Instagram), de forma a gerar “popularidade efêmera”.
É usada estrategicamente por alguns conselheiros de marketing e amplia o alcance dos nas redes. Ademais, gera familiaridade e impulsiona as contas de quem “entra no jogo”.
Isso é fato, porém nisso reside uma armadilha: a submissão ao efêmero, que transforma profissionais posicionados em palhaços de circo digital.
A trend “Será?” começou com jornalista João Inácio Júnior. O apresentador é extremamente competente e detém recorde de tempo à frente de telejornais no Ceará. Na trend, ele surge com olhares enviesados, com tom interrogativo forçado e com coreografia cômica, de forma a questionar trivialidades como “Será que o sol vai brilhar?”.
Tudo começa assim: um gimmick (uma tática de marketing de produtos projetada para atrair atenção imediata e para espalhar-se rapidamente pelas redes sociais). Pronto. Milhões de visualização foram garantidas.
Isso é muito simbólico.
Então, penso imediatamente em Guy Debord, um dos mais importantes pensadores do século XX, na obra A Sociedade do Espetáculo. Para Debord, o espetáculo é a apresentação de imagens meramente consumíveis, em que o ser autêntico se dissolve no aparecer. Tudo é altamente superficial e inautênco. Tudo é só uma tendência.
A trend é o ápice do espetáculo. Nela, o profissional não tenta construir reputação por expertise, mas por encenações vazias que alimentam a atenção, de forma a converter adultos em crianças em playground digital a “celular (ops! a céu) aberto”.
Essa infantilização da vida adulta, fenômeno analisado por pensadores como o sul-coreano Byung-Chul Han, é gravíssima para o mundo profissional, seja ele público ou privado.
A maturidade exige seriedade; exige profundidade; exige responsabilidade. A trend impõe puerilidade, repetição mecânica e o ridículo.
Infelizmente, bons profissionais, que dependem do nome, como empresários e advogados, rendem-se ao imperativo lúdico das redes, por temerem o esquecimento.
Sim, eles têm “views”, porém efêmeros. E vendas? E credibilidade com quem é sério?
A audiência ri e até compartilha, mas não compra cursos ou consultorias.
A imagem ridicularizada repele parcerias sérias. O que viraliza como piada não converte em autoridade. Estudos de marketing digital, como os da HubSpot, confirmam que conteúdos autênticos geram 23% mais engajamento conversível que gimmicks virais.
A sociedade do espetáculo nos ludibria e transfora adultos em crianças, de modo a prometer relevância por meio de infantilização.
Precisamos, não apenas por dinheiro, mas por dignidade profissional, voltar a ser adultos. Precisamos entender que a dignidade adulta prioriza o eterno sobre o viral.
É evidente que não estou a dizer que não podemos brincar ou sermos engraçados. O que defendo é que trends como “Será?” geram constrangimento em pessoas que têm respeito por grandes profissionais que se submetem a isso.
Uma coisa é certa: a trend “Será?” faz rir, mas a infantilização do espetáculo ridiculariza a autoridade profissional.
Infelizmente, haverá aquele que – por ressentimento – lerá este texto, não concordará e fara’ um vídeo para me criticar com uma dancinha que se inicia com “SERÁ?”
E aí?
SERÁ?

Carlos André Pereira Nunes,
linguista, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da ACIEG e Presidente do Instituto Carlos André.














