Meu avô costumava dizer que, para ganhar dinheiro no campo, bastava “cuidar da terra e rezar pra chover”. Ele não estava errado — para a época dele. O problema é que muita gente ainda acredita nisso, como se o agronegócio do Centro-Oeste fosse o mesmo de 1970. Não é. Hoje, rezar pra chover sem olhar a temperatura do Oceano Pacífico é mais ou menos como dirigir à noite com o farol apagado: até pode dar certo, mas é uma questão de tempo até dar muito errado.
Explico.
Nos últimos 60 anos, os dados climáticos revelam uma ironia que deveria tirar o sono de qualquer produtor do Cerrado. No tabuleiro das commodities, o nosso lucro é frequentemente alimentado pelo infortúnio dos outros. E quem dita esse jogo não é o Governo, não é a Bolsa de Chicago e não é o dólar. É um fenômeno com nome espanhol e endereço no Pacífico: o ciclo de El Niño e La Niña.
Quando a La Niña entra em cena, ela costuma ser generosa com o nosso bioma. Traz chuva boa, distribuída, no tempo certo. Resultado: safras recordes no Centro-Oeste. Mas enquanto chove aqui, seca lá. O Sul do Brasil sofre. A Argentina sofre. E, mais importante para o nosso bolso, o Corn Belt americano sofre. Quando o Centro-Oeste colhe muito e o mundo tem pouco, os preços disparam. É o que eu chamaria de cenário do “lucro pleno”: produtividade alta com preço alto. O sonho de qualquer produtor.
Agora, inverte o disco. Quando o El Niño assume, a lógica se inverte de forma cruel. Ele abençoa os americanos e o Sul brasileiro com safras fartas, e nos presenteia com veranicos, calor escaldante e chuva irregular. Aqui, a produtividade cai. Lá fora, a oferta mundial explode. Preço derrete. Ou seja: colhemos menos justamente quando o mundo não precisa de nós. É o pior dos mundos.
Tem gente que argumenta: “Mas e a tecnologia? Semente tolerante à seca, plantio de precisão, agricultura 4.0… isso não resolve?”. Resolve em parte, mas não do jeito que muitos imaginam. Tecnologia no agro moderno não serve para ignorar o clima. Serve para sobreviver a ele. Uma semente resistente à seca é um colete salva-vidas, não um iate. Ela mantém o produtor vivo no ano ruim, enquanto ele espera o ciclo virar. Confundir ferramenta de sobrevivência com garantia de prosperidade é um erro caro.
O produtor que foca apenas na porteira para dentro — semente, adubo, maquinário — e ignora o que está acontecendo a milhares de quilômetros, no meio do Oceano Pacífico pode ser um excelente agricultor. Mas corre sério risco de ser um gestor vulnerável. A rentabilidade, hoje, não nasce apenas da saca colhida. Nasce da capacidade de entender quando o mercado global está exposto à escassez ou afogado em excesso.
E aqui está o ponto que mais me preocupa.
Estamos em abril de 2026. Os modelos climáticos apontam para a possibilidade de um novo El Niño no segundo semestre. Se confirmado, o alerta para o Centro-Oeste é claro: não basta planejar a compra do fertilizante. É preciso blindar a comercialização.
Derivativos, travas de preço, seguros paramétricos, assessoria jurídica para lidar com a volatilidade contratual — tudo isso deixou de ser sofisticação de trading para se tornar o básico da sobrevivência do produtor médio. Quem ainda acha que hedge é “coisa de especulador” está tão desatualizado quanto quem achava, nos anos 90, que internet era moda passageira.
O agronegócio do Centro-Oeste é, de longe, o setor mais globalizado da economia brasileira. Para quem está em Goiás, em Mato Grosso, em Minas, o termômetro do sucesso não está só no pluviômetro da fazenda. Está na temperatura das águas equatoriais, a milhares de quilômetros daqui.
Meu avô olhava para o céu para saber se ia chover. O produtor moderno precisa olhar para o céu para saber quanto vai valer o que colheu. A terra continua sendo o palco. Mas quem escreve o roteiro do preço é o Pacífico. E, nesse espetáculo, quem não lê o roteiro antes de subir ao palco corre o risco de improvisar na hora errada.

Dênerson Rosa,
advogado e sócio fundador da Dênerson Rosa Sociedade de Advogados, com atuação estratégica em Direito Tributário, Empresarial e Societário














