O cenário econômico brasileiro atingiu um marco sombrio nos últimos seis meses. A inadimplência não apenas voltou a crescer com força, como ultrapassou, pela primeira vez na história, a marca de 81 milhões de pessoas. O dado é alarmante: se considerarmos apenas a população economicamente ativa, quase metade dos brasileiros está com o nome sujo. Diante desse abismo financeiro, surge a pergunta inevitável: o que está drenando o orçamento das famílias? Para o presidente Lula, a culpa parece recair sobre a afeição do brasileiro pelos animais de estimação. Mas a realidade das planilhas aponta para um vilão muito mais insidioso e estimulado pelo próprio Estado, os jogos on-line. Fica a pergunta: pet ou bet, senhor presidente?
Em agenda nesta semana em Anápolis, na fábrica da Caoa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um de seus discursos que mistura alhos e bugalhos, atribuiu o “sequestro” do salário do trabalhador aos gastos com clínicas veterinárias, banhos e até dentistas para cães. “Na China, não deve ter esse problema”, ironizou, entre risos da plateia.
A fala, embora buscasse um tom bem-humorado, ignora a tragédia numérica que se desenrola no consumo doméstico. Enquanto o Governo aponta o dedo para o gasto com o bem-estar animal, mantém um silêncio conveniente sobre o verdadeiro ralo financeiro que se tornou o mercado de apostas online, as bets. Aliás, o baú de ouro do Estado é o inferno de muitas famílias.
No início do mandato, houve um esforço para reduzir o número de endividados, cumprindo promessas eleitorais, pressão puxada pelo candidato concorrente Ciro Gomes, que viralizou. Contudo, a ausência de uma campanha ativa de educação financeira e o abandono de políticas estruturais de organização do orçamento doméstico permitiram que o terreno voltasse a erodir. E o buraco é fundo.
Se deu com uma mão, tirou com uma pá. Duas ações governamentais foram decisivas para o retrocesso no tema: a manutenção dos juros em patamares históricos – os maiores das últimas duas décadas – sem medidas que contivessem as taxas abusivas de cartões de crédito e bancos, e a promoção agressiva das apostas.
O Governo colocou as bets em evidência com uma regulamentação, que pode ser chamada de frouxa, muito mais preocupada em elevar a arrecadação tributária do que em proteger os consumidores. O resultado foi uma explosão do consumo de jogos de azar e cassinos virtuais, gerando dependência e vício. Quanto mais se joga, mais o Estado ganha via tributos. Pois é, como nos demais setores, virou sócio indireto do negócio.
Se o Governo arrecadou R$ 37 bilhões em impostos só em 2025 com as bets, dado oficial da Fazenda, imagina as empresas deste setor – muitas sob suspeita de ligação com grupos criminosos e alvos de CPIs já abafadas.
É um desvio maciço de capital da economia produtiva para um vício estimulado pelo Estado em busca de super-receita. O Governo mama em
uma teta, e as bets, na outra.
Agora, culpar o ‘banho do cachorro’ pelo endividamento de 81 milhões de pessoas não é apenas um equívoco analítico, é um desrespeito à inteligência do cidadão que vê seu orçamento minado por juros extorsivos e pelo bombardeio publicitário das apostas – com influenciadores, artistas e jogadores emprestando suas caras lavadas por um dinheiro que custa caro para toda sociedade.
Enquanto o Governo disfarça o tema, visando o período eleitoral, meio que suavizando este câncer social, e foca apenas em tributar e arrecadar, a população empobrece e adoece mentalmente. Presidente, esse tema do endividamento merece mais atenção e menos piadas. Suicídios, separações, agiotagem e roubos estão entre as consequências deste grave movimento – com viés fiscalista – que tem todas as digitais do Executivo Federal.
É urgente que o Ministério da Fazenda vá além de “facilitar o pagamento” de dívidas já feitas. É necessário enfrentar os oligopólios financeiros, regulamentar com rigor e dividir responsabilidade sobre este setor de apostas, que destrói famílias, empresas e empregos – pois tira bilhões do setor produtivo.
Até lá, o discurso oficial continuará sendo uma distração conveniente, piadinha para chinês ouvir. O brasileiro não está endividado porque ama seus pets; ele está sendo asfixiado por um sistema que combina salários baixos com a priorização da agiotagem oficial dos bancos e a arrecadação sobre a dignidade humana.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














