Alguns eventos pensam e mostram o futuro das relações e dos negócios. O SXSW, em Austin, Estados Unidos, já assumiu, com outros eventos, como a NRF e o Web Summit, essa responsabilidade. Entender os movimentos para agir é papel dos empreendedores. Nesta edição, a Leitura Estratégica traz uma matéria com insights do evento e um artigo do colunista Ciro Ribeiro Rocha, que esteve lá, sobre o tema.
O que se destaca é o desconforto de quem esperava uma nova tecnologia no SXSW e teve de voltar sem. A tendência aponta para uma equação em que o humano passa a ter um valor diferenciado no resultado. A tecnologia já não opera isolada. Ela influencia o comportamento, molda relações e começa a reconfigurar aquilo que sustenta qualquer empresa: confiança, conflito e compromisso.
Tecnologia é commodity, todos compram ou comprarão. O debate não é mais como acessar a informação, mas interpretar, filtrar e sustentar decisões em um ambiente no qual tudo parece possível, mas pouca coisa é consistente.
Ainda ter IA sem liderança? Criatividade sem sentido lógico para sua realidade? Neste cenário, muito vai se usar de ferramenta por osmose, sem transformação, sem trazer efeito prático ou funcional para a organização. O recado da SXSW foi direto: curadoria, relevância e visão crítica deixaram de ser atributos intelectuais e passaram a ser ativos competitivos.
Ou seja, a parte gente da coisa vale mais do que se imagina. IA custa R$ 99 por mês, mas tem uma operação construída para ela na empresa? E mais: tem operadores? IA é ferramenta, barata e acessível. Os resultados podem ser tão insuficientes que podem não valer R$ 99.
Até chegar ao ponto de equilíbrio, do comum a todos, terão movimentos de dúvidas, incertezas e ajustes. A questão maior, ainda pouco visível, é que não é um problema tecnológico, mas de repertório humano.
Até lá, vamos medir impactos, encontrar convergências, reposicionar profissões e pessoas. Impactos já são perceptíveis no consumo. Ou seja, o consumidor busca experiências mais previsíveis, menos densas e mais imediatas. Ou seja, menos vínculo, mais transação. Varejo, prepare-se para essa realidade.
Outro ponto: as relações contratuais. A formalização cresce na mesma medida em que a confiança diminui. Relações comerciais tendem a ser mais detalhadas, mais protegidas e, paradoxalmente, mais frágeis na execução. Contratos mais robustos não substituem relações frágeis.
E, por último, nas empresas, o centro de impactos de todas as mudanças. Organizações passam a operar com times tecnicamente mais produtivos, porém emocionalmente mais instáveis. É, por exemplo, uma Geração Z virando pai e mãe, pagando aluguel, se readaptando às novas idade e realidade (vale uma capa). Nas empresas, a eficiência operacional pode subir, enquanto a coesão interna se deteriora.
O paradoxo é evidente: nunca tivemos tantas ferramentas para melhorar a comunicação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil sustentar relações de qualidade. Pensa no quanto os pensadores estão queimando a cabeça para redesenhar o mundo.
Diante de tudo disso, a resposta não está em mais tecnologia. Está na liderança. O líder é o pai de todas as decisões. O bom líder eleva o patamar, enquanto o líder capenga contamina o time de insegurança e conflitos. Fique perto dos bons líderes e cresça.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














