Um amigo comentou que estava pensando em comprar um robô aspirador. “Vai evitar algumas discussões lá em casa”, disse, meio em tom de brincadeira. Menos tempo limpando, menos desgaste na divisão das tarefas. Parece só uma escolha prática. Mas talvez não seja.
Porque, no fundo, quando uma família decide substituir trabalho humano por tecnologia, ela está reagindo a um custo – e talvez essa decisão diga mais sobre o Brasil do que sobre o próprio casamento.
Hoje, no País, uma empregada doméstica que recebe cerca de R$ 1.800 não custa isso para quem contrata. Com encargos como INSS e FGTS, o valor mensal já sobe para algo próximo de R$ 2.200. Quando entram 13º, férias, adicionais e eventuais extras, o custo real pode ser até 40% maior do que o salário. Não é uma crítica. É uma constatação. O resultado é que, para muitas famílias, o trabalho humano se torna caro – caro o suficiente para ser repensado.
É nesse espaço que a tecnologia entra. Não necessariamente porque ficou barata, mas porque, na comparação, passou a fazer mais sentido. O robô aspirador não pede férias, não gera encargos, não exige formalização. Ele é adquirido uma vez e passa a “resolver” parte do problema. Claro, ele não substitui completamente uma pessoa. Nem em qualidade, nem em complexidade das tarefas. Mas, ainda assim, entra na conta.
E é aqui que a discussão deixa de ser doméstica. Porque essa escolha – silenciosa, cotidiana – é moldada por algo maior. Quando o custo do trabalho sobe, contratar deixa de ser óbvio. Quando o imposto sobre consumo é invisível, comprar parece mais simples.
E, olhando para frente, esse cenário pode se intensificar. A reforma tributária promete simplificar o sistema e trazer mais transparência. Mas, na prática, ela também muda a forma como diferentes atividades são tributadas. E existe um ponto que começa a chamar atenção: serviços – justamente aqueles mais intensivos em trabalho humano – tendem a ficar relativamente mais caros. Não porque alguém decidiu penalizá-los diretamente, mas porque, ao reduzir distorções e unificar impostos sobre o consumo, atividades que hoje pagam menos podem passar a pagar mais.
Na prática, isso significa que decisões como a do meu amigo podem se tornar ainda mais comuns. Não porque as pessoas deixaram de valorizar o trabalho humano, mas porque o sistema continua definindo, silenciosamente, o preço dessas escolhas.
No fim, a escolha entre contratar alguém, fazer por conta própria ou comprar um robô deixa de ser apenas uma questão de preferência. Ela passa a ser uma questão de viabilidade – e isso não fica restrito à limpeza da casa. Está nas decisões de pequenas empresas que deixam de contratar, nos profissionais que migram para a informalidade e nas famílias que reorganizam a sua rotina.
O robô aspirador do meu amigo pode até evitar discussões sobre quem passa a vassoura, mas ele não oferece companhia, não compartilha o café e não circula renda diretamente na base da pirâmide. Se o custo de contratar uma pessoa se tornar impeditivo, o risco é transformarmos nossas casas em ilhas de eficiência automatizada, onde o silêncio da máquina substitui o ruído, por vezes complexo, mas essencialmente humano, das relações de serviço e cuidado.

Luziano Lima,
Contador, pós-graduado em Auditoria e Planejamento Tributário. Coordenador do Departamento Fiscal da Denerson Rosa Advogados.














