Indicadores econômicos funcionam como marcadores de saúde humana. Isoladamente, cada dado é apenas um sinal. Em conjunto, formam um diagnóstico. Pressão arterial, glicemia, colesterol e frequência cardíaca, quando analisados de forma integrada, revelam muito mais do que qualquer exame isolado. Na economia, o raciocínio é o mesmo: o cenário macro não se explica por um número, mas pela convergência de sinais.
Uma economia operando com taxa básica de juros de 15% ao ano indica um organismo em permanente estado de tensão. A inflação acima de 4% revela dificuldade de controle, perda de previsibilidade e corrosão silenciosa da renda. A inadimplência sempre superando 70 milhões de brasileiros – mais de um terço da população economicamente ativa – aponta para um sistema circulatório travado, no qual o crédito não flui com eficiência e o consumo acontece sob estresse.
O mercado de trabalho, à primeira vista, pode sugerir vitalidade. Taxas de desemprego abaixo de 5% em diversos Estados são frequentemente celebradas como sinal de força econômica. Mas, se jogar uma lupa e olhar com mais profundidade, o baixo desemprego revela escassez de mão de obra qualificada, aumento estrutural de custos, queda de produtividade e dificuldade de expansão das empresas. Além de enxugar a taxa o universo formado por muitos que optaram por serem autônomos, informais ou subempregados.
Emprego pleno, sem crescimento sustentável, também é sintoma – não necessariamente cura. É a população sendo empurrada para um segundo ou terceiro turno para sobreviver. É o avesso do debate (muito politizado) da jornada 6×1. O cenário de hoje é 12×0 – parte dos brasileiros trabalha períodos extras além da jornada normal, informais ou não, para sobreviver.
O erro está em analisar indicadores como manchetes, e não como exames clínicos. Uma economia com juros altos, inflação persistente, inadimplência elevada e mercado de trabalho tensionado não está saudável – está funcionando no limite. Cresce apesar das fragilidades, não por causa delas. Os problemas estruturais são mantidos e a renda extra (muito suada) é um Dorflex contra um tumor que cresce em silêncio.
Nesse contexto, decisões estratégicas exigem leitura fria, integrada e menos emocional dos dados. Assim como na Medicina, ignorar sinais recorrentes não elimina o problema – apenas adia o tratamento. Empresas que compreendem o diagnóstico ajustam expectativas, reforçam governança, protegem caixa e revisam estratégias de crescimento (e mesmo assim passam apertado). As que insistem em operar como se o ambiente fosse neutro assumem riscos silenciosos.
Economias doentes não quebram de uma vez. Elas adoecem aos poucos. A brasileira é muito forte na estrutura, que, mesmo corroída e achatada, aguenta a pancada. E, como no corpo humano, é preciso não só fazer exames, mas tratar corretamente a saúde. Neste caso, o médico, acostumado com o paciente humilde e silencioso, também precisa se tratar.

Leandro Resende, editor-chefe da Leitura Estratégica














