A Goiânia que conhecemos hoje, que nos orgulha por tantos motivos, forjou a sua personalidade, a sua goianidade e o seu caráter resiliente entre as décadas de 1970 e 1980. Se o esforço braçal para levantar uma cidade do zero se deu nos anos 1930 e 1940, foram nas décadas seguintes, principalmente nestes 20 anos que avalio aqui, que tivemos uma “explosão” que deram alma à capital.
Foi um ciclo de transição: do isolamento planejado à consolidação de um polo regional de negócios, educação e, sobretudo, de uma efervescência cultural própria e jovem, que desafiou a recessão e encarou a censura para projetar Goiás no mapa do Brasil.
Nesse período, a estética da cidade ganhou contornos críticos e universais. Vestimos o Centro da cidade de Art Déco e é um desafio manter viva essas nossas linhas de formação, inclusive, revitalizá-la no concreto e na mentalidade das pessoas. É um patrimônio que, como já vimos em outras experiências, pode ser atropelado por gente e gestores sem discernimento.
Nos anos 1970, novas trilhas se formam na cidade. “Trieiros” levam a novos bairros, recebemos um novo fluxo migratório sem precedentes – Goiânia é uma terra de migrantes, movimento que nunca cessou. Também é o tempo de Siron Franco, que com sua sensibilidade visceral, levou as questões do Centro-Oeste para as galerias do mundo. Ao seu lado, a genialidade de Antônio Poteiro traduzia o barro e a religiosidade em uma linguagem que só Goiânia poderia gerar.
Foi também a era do reconhecimento tardio, mas necessário, de nossos baluartes literários. Ver Cora Coralina e Bernardo Élis serem celebrados nacionalmente nos anos 1970 e 1980 não foi apenas um ato de justiça poética, mas a prova de que a “goianidade” tinha densidade para dialogar com qualquer centro intelectual.
A vida social transbordava para os espaços públicos. A Praça Tamandaré e a Feira Hippie (em seus primeiros anos) não eram apenas pontos de comércio, mas palcos de resistência e moda. A juventude goianiense, influenciada pelos movimentos globais, mas conectada ao solo local, vivia a era das bandas de baile, que ditavam o ritmo das noites e formavam os músicos que, mais tarde, profissionalizariam nossa indústria fonográfica.
Neste caldeirão, pontos de resistência intelectual, como a Editora Oriente, tornaram-se a convergência de uma geração que pensava a cidade para além dos prédios. No apagar das luzes dos anos 1980, dois marcos selaram essa maturidade cultural: o surgimento da Quasar Cia de Dança e a fundação do Centro Cultural Martim Cererê (os dois em 1988). Ambos simbolizavam uma Goiânia que já não aceitava ser coadjuvante. A cidade agora dançava e encenava a sua própria história em teatros e antigas caixas d’água.
Destaca-se 1987, com o acidente do Césio 137 e o Moto GP, evento internacional que décadas depois desembarca em 2026 na capital do Estado.
Olhar para os anos 1970 e 1980 é entender os fluxos que transformaram uma capital administrativa em um centro de decisão. É nos descrever e trazer uma geração rica de ideias e vivências ao centro da pauta.
O legado dessa geração é a percepção de que o progresso econômico só é pleno quando acompanhado pelo fortalecimento da identidade. Entender esses ciclos é fundamental para quem decide o futuro de Goiânia hoje: uma cidade que cresce para o alto, mas que nunca deve perder de vista as raízes profundas que sustentaram a sua mais importante transição.

Juscimar Ribeiro,
Advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional.














