Há uma guerra silenciosa sendo travada nos bastidores da economia global. De um lado, as grandes bandeiras de cartões de crédito – gigantes que, durante décadas, capturaram percentuais sobre cada transação realizada no planeta. Do outro, um país de dimensões continentais que decidiu, com método e inteligência regulatória, construir sua própria infraestrutura de pagamentos.
É algo valioso, porque veio de uma estrutura técnica, moldada e desenvolvida por servidores públicos do Banco Central do Brasil, e faço questão de repetir: a referência do Brasil no mundo da tecnologia partiu de um projeto desenvolvido por servidores públicos.
A repetição é válida para fortalecer essa categoria de profissionais no País, os servidores públicos, que são alvo de um discurso de desqualificação tão antigo quanto desnecessário, tão injusto quanto desinformado. É comum que pessoas desinformadas ou preconceituosas usem da depreciação e desrespeito contra os servidores públicos brasileiros. Serve para quem prefere uma estrutura pública fraca, sem memória técnica, com narrativa sempre negativa e comparativa quanto a seus quadros. Sem conhecer, julgando-os como incapazes de enfrentar em igualdade de condições os melhores engenheiros e economistas do setor privado global.
O Pix é a resposta mais eloquente a esse discurso. Não veio de um laboratório do Vale do Silício. Não nasceu numa fintech financiada por capital de risco, nem pelo bilionário setor financeiro do País. Foi concebido, desenhado e entregue por homens e mulheres de carreira pública que acumularam décadas de conhecimento institucional e decidiram usá-lo para mudar, de forma permanente, a vida de mais de 160 milhões de brasileiros.
Fizeram isso a quatro paredes, para não contaminar o processo com viés que favorecesse mais o sistema do que o usuário. O que é muito comum no Brasil – que vende benefício ao consumidor, mas quase sempre o alvo da benesse é o setor privado. O Brasil não apenas venceu esse embate nos seus próprios termos. Tornou-se, globalmente, o espelho de inovação financeira do mundo a partir de um caso real. O Pix completou pouco mais de quatro anos de operação e já acumula recordes que envergonham sistemas construídos em décadas nas economias mais ricas do mundo. Mais de 160 milhões de usuários. Mais de 4 bilhões de transações mensais. Uma taxa de adoção que o FMI, o BIS e bancos centrais europeus estudam com um olhar que nunca tiveram para o Brasil.
Nenhum sistema de pagamentos instantâneos no mundo chegou a essa escala com essa velocidade, com essa performance, sem ajoelhar para a indústria financeira mundial. Por ser grátis, o Pix irrita (ameaça) esse grupo de poucas empresas que comandam a rede de pagamentos globais. O Pix era só transferência, mas hoje paga, recebe, faz troco, parcela, financia… olha o tamanho do problema para este mercado.
Demos o show no UPI da Índia e no FedNow americano, que estreou timidamente enquanto o Pix já dominava 40% do volume total de pagamentos no varejo brasileiro. Em pouco mais de dois anos, o Pix se tornou o principal meio de pagamento brasileiro – tirou da liderança de décadas dos cartões. A leitura desta última frase arrepia os CEOs das empresas de cartões, que temem se caso esse “vírus” verde e amarelo se espalhe globalmente.
Mas o que encanta os observadores internacionais não é só o número. É a arquitetura da decisão. O Banco Central do Brasil fez o que poucos reguladores do mundo tiveram coragem de fazer: retirou das mãos dos grandes intermediários privados o controle sobre a espinha dorsal das transações e colocou essa infraestrutura a serviço do cidadão – gratuita, disponível 24 horas e com controle 100% do BC. Não houve espaço para o rent-seeking (busca de renda), que transforma cada uso de cartão em uma renda passiva para a Visa e a Mastercard.
Cada real transferido pelo Pix é um real que não passa pela maquininha, não gera intercâmbio para as bandeiras internacionais, não financia a estrutura de lobby que, durante anos, manteve o custo dos pagamentos artificialmente elevado. O tapa nos cartões os obrigou a se mexer: programas de pontos mais generosos, com cashback e com campanhas publicitárias sofisticadas.
Se o Brasil é protagonista hoje, é graças ao servidor público. Que olhemos melhor e sem preconceito para essa importante categoria do mercado de trabalho brasileiro.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














