Vinte anos depois de o primeiro filme de “O Diabo veste Prada” ser um sucesso, e em plena época de um lançamento da sequência – com enredo em torno da personagem principal Miranda Priestly (Maryl Streep) –, muito se tem falado sobre o papel de um líder.
Percebe-se que liderança é algo que não se mede apenas em períodos de estabilidade. A liderança é colocada à prova principalmente nos momentos de crises, de perdas, de mudanças e de disputas. Em tempos líquidos, como defende Bauman, em que há reputações frágeis e ciclos profissionais cada vez mais instáveis, liderar deixou de ser apenas ocupar uma posição de comando. Liderar não é somente contemplar, como define Augusto Cury, mas sim, interpretar cenários. É ter autorresponsabilidade. É conduzir pessoas em meio à incerteza.
Ao ver o filme com olhos de quem vive a gestão de uma empresa e, ao comparar com estudos acadêmicos, percebe-se que vida reflete a teoria (ou seria a teoria resultado de anotações empíricas?). Gostaria, então, de sugerir cinco aprendizados.
O primeiro aprendizado é que toda crise de reputação exige presença do líder. Ninguém está livre de errar, afinal, somos humanos. Quando uma marca, uma instituição ou uma equipe é questionada publicamente, o silêncio pode ser tão prejudicial quanto o erro inicial – afinal, “quem cala, consente”. Peter Drucker afirmava que a gestão começa pela responsabilidade – prefiro o termo “autorresponsabilidade”. Isso significa que o líder não terceiriza a crise: ele reconhece o problema, protege a instituição, comunica-se com clareza e orienta a equipe para a reconstrução da confiança.
O segundo aprendizado está na necessidade de adaptação. Ao tratar da gestão da mudança, John Kotter defende a sobrevivência de organizações que conseguem criar senso de urgência e mobilizar pessoas para novos ciclos. Viver no passado é olhar para trás e não acompanhar o presente. Para mudar isso, é necessário que se tenha uma leitura estratégica quanto a mudanças de mercado, de linguagem, de público e de tecnologia. É necessária uma adaptação, uma atualização, e não um abandono dos princípios!
O terceiro aprendizado é a valorização das relações profissionais construídas ao longo do tempo. Ninguém faz nada sozinho! O líder inteligente entende que pessoas não são descartáveis: são memória, são reputação e são possibilidade de futuro. Dale Carnegie fala sobre a valorização das pessoas de forma sincera. Fala sobre evitar discussões, sobre admitir erros rapidamente e sobre influenciar por meio do relacionamento. Relações profissionais maduras podem abrir portas, redirecionar trajetórias e estabelecer novas parcerias em momentos importantes.
O quarto aprendizado envolve a reorientação estratégica após demissões. Uma demissão pode parecer fracasso definitivo, mas também pode funcionar como ponto de inflexão, como observado nos gráficos de Isaac Newton sobre as equações de segundo grau (lembra?). O “fundo do poço” é, tão somente, o início da emersão (não da imersão). É o momento de o profissional a revisar competências, reposicionar a sua imagem e descobrir uma direção mais coerente com seu potencial.
Por fim, o quinto aprendizado fala da importância do posicionamento individual para a progressão na carreira. Ele está muito ligado ao que será feito após o quarto aprendizado. Não adianta ter somente competência técnica. É necessário ter um ativo inerente ao ser humano: uma excelente comunicação. O professor Carlos André possui uma frase que é repetida inúmeras vezes, em suas palestras: “Comunicação é poder”. É somente com esse poder que o profissional saberá ocupar espaços, apresentar resultados, construir autoridade e tornar visível a própria contribuição.
Liderança exige responsabilidade diante da crise, adaptação diante da mudança, cuidado com as relações, coragem para recomeçar e clareza de posicionamento. Em um mundo profissional cada vez mais competitivo, quem lidera bem não é apenas quem manda.

Marina Godoy Marques Nunes,
Empresária, engenheira, vice-presidente da Câmara da Mulher da Acieg e diretora-executiva e cofundadora do Instituto Carlos André e da Academia da Comunicação.














