Por Rafael Vaz
A chegada da MotoGP a Goiânia, neste fim de semana, devolve à capital de Goiás um protagonismo que não é inédito, mas retomado. Após mais de duas décadas fora do calendário da principal categoria da motovelocidade mundial, o Brasil volta a sediar a competição em um momento que mobiliza investimentos, movimenta a economia e projeta a capital goiana para o cenário internacional.
Ainda assim, tratar o evento como um ponto de partida seria ignorar uma história construída muito antes das grandes estruturas, das transmissões globais e da profissionalização do esporte. A relação de Goiânia com o motociclismo acompanha a própria formação da cidade e se confunde com o ideal de modernidade que marcou a sua origem.
Nos anos 1930, quando a nova capital começava a se consolidar, o esporte já era visto como elemento fundamental de afirmação urbana. As chamadas corridas de circuito rapidamente se tornaram uma das principais atrações locais, reunindo provas de bicicletas, corridas a pé e, principalmente, disputas com motocicletas. Em 1938, jornais já registravam a expectativa gerada pelas competições, com a chegada de participantes de outros estados e a mobilização de torcedores.
As corridas de moto, naquele contexto, eram o ponto alto. Realizadas em vias públicas, com percursos improvisados, atraíam milhares de pessoas e transformavam a cidade em um grande palco esportivo. Em 1941, essas provas já eram consideradas tradicionais e seguiam crescendo em público e relevância.

Entre o improviso e o espetáculo
O motociclismo que se consolidava em Goiânia nas décadas seguintes tinha características próprias. Era um esporte marcado pelo improviso, pela proximidade com o público e pela ausência de estruturas formais.
As largadas aconteciam em avenidas movimentadas, como a Anhanguera, e o percurso passava por pontos centrais da cidade, como a Praça do Bandeirante. A segurança era limitada e, muitas vezes, restrita a cordas posicionadas para conter o público.
Ainda assim, o que se via era entusiasmo. Relatos da época descrevem corridas realizadas “em ambiente de delírio”, com arquibancadas improvisadas e grande participação popular. Pilotos se tornavam figuras conhecidas e admiradas, não apenas pelos resultados, mas pela coragem em enfrentar condições precárias e máquinas instáveis. Essa combinação de risco, espetáculo e proximidade ajudou a consolidar uma cultura que atravessaria gerações.

“Era tudo por amor”
Essa realidade ainda estava presente nos anos 1960, quando Edmar Ferreira iniciou a sua trajetória no motociclismo. Campeão brasileiro na categoria 350 cilindradas e participante do Mundial em 1975 e 1976, ele viveu um período em que o esporte era sustentado essencialmente pela dedicação dos próprios pilotos.
“A equipe era um mecânico, um auxiliar, o piloto e um motorista de caminhão, e muitas vezes, era a gente mesmo. Existia muito improviso, mas muita dedicação. Não era comercial como hoje, era puro amor”, afirma.
A primeira corrida ocorreu em Goiânia, em 1960, durante as comemorações do aniversário da cidade. Edmar competiu com uma Lambretta comprada com dificuldade e preparada por ele mesmo, sem o conhecimento do pai. “A largada era na rua, tudo improvisado. A polícia colocava corda, não tinha estrutura nenhuma. E eu ganhei”, diz.
A vitória marcou o início de uma trajetória construída com esforço. Filho de uma costureira e de um funcionário público, ele precisou trabalhar desde cedo para financiar a sua participação no esporte. “Meu começo foi muito difícil. Eu precisava trabalhar para ter uma moto. Tudo era muito apertado”, afirma.
O salto para competições maiores veio a partir de apoio externo, incluindo um patrocinador que decidiu investir após assistir a uma corrida em São Paulo. “Ele falou: ‘Se você tiver estrutura, você ganha’. E aí começou a minha trajetória”, relembra.
A partir desse momento, Edmar passou a competir em nível nacional e internacional, alcançando resultados expressivos. Entre os episódios mais marcantes, ele destaca a primeira vitória em uma prova internacional. “Foi em Interlagos. Aquilo me marcou muito”, conta.
Na Europa, enfrentou o que considera um dos maiores desafios do motociclismo: as provas de longa duração. “Você imagina 24 horas de corrida, com chuva, frio, pista difícil. E quando a moto quebra, o piloto tem que empurrar até o boxe”, recorda.
Apesar das dificuldades, ele descreve o período com uma percepção que vai além da nostalgia. “Foi uma época de muita dedicação. Quem estava ali, estava porque gostava muito”, destaca.


Anos 1980: Goiânia no mapa do mundo
A consolidação dessa cultura encontrou seu ponto de virada nos anos 1980. Com o Autódromo Internacional Ayrton Senna já em funcionamento, Goiânia passou a receber eventos de maior porte, culminando na realização de três etapas do Mundial de Motovelocidade, entre 1987 e 1989.
A estreia, em 1987, foi histórica. Além de marcar a primeira vez que o Brasil sediava a competição, a etapa teve impacto direto na definição do campeonato. O australiano Wayne Gardner venceu a prova e garantiu o título mundial da categoria 500cc.
O pódio contou ainda com Eddie Lawson, que se tornaria um dos grandes nomes da categoria, e Randy Mamola, conhecido pelo estilo agressivo e pela forte conexão com o público.
Na categoria 250cc, o francês Dominique Sarron venceu, seguido pelo espanhol Alfonso Pons e por Carlos Cardus.
O evento foi amplamente elogiado pela Federação Internacional de Motociclismo e projetou Goiânia como referência na América Latina. À época, chegou a ser cogitada a possibilidade de a cidade receber também provas de Fórmula 1.
Nos anos seguintes, o protagonismo se manteve. Em 1988, Eddie Lawson confirmou o título mundial em Goiânia. Em 1989, Kevin Schwantz venceu a última etapa realizada na cidade, enquanto Lawson garantiu mais um campeonato.
Uma tradição que se mantém
Mesmo após a saída do Mundial de Motovelocidade, Goiânia não se afastou do motociclismo. O autódromo continuou recebendo competições nacionais e eventos que mantiveram viva a cultura das duas rodas.
Esse legado também pode ser observado na trajetória de Roberto Boettcher, piloto de motocross com títulos nacionais e internacionais e atual administrador do autódromo. “Meu pai foi pioneiro em Goiás. Montou a primeira oficina, a primeira concessionária e também foi piloto. Eu vim de uma família do motociclismo”, afirma.

Boettcher iniciou a carreira na década de 1970, passando pela motovelocidade antes de migrar para o motocross, categoria em que alcançou títulos importantes. “Fui campeão brasileiro, campeão latino-americano e o primeiro brasileiro a trazer um título internacional para o motociclismo”, destaca.
A experiência como piloto hoje orienta a sua atuação à frente do Autódromo Internacional Ayrton Senna, que passou por um amplo processo de modernização para receber o MotoGP. “As motos evoluíram, a tecnologia evoluiu e o autódromo também precisou evoluir. Tudo o que está sendo feito agora é pensando nisso”, pontua.
As intervenções incluem alargamento de trechos da pista, reestruturação das áreas de escape, modernização do paddock e atualização dos sistemas técnicos, alinhando o circuito aos padrões internacionais exigidos pela categoria.
Para Boettcher, a cultura local continua sendo um diferencial. “O motociclismo é um dos esportes que mais deu títulos para Goiás. Essa identidade sempre esteve presente”, reflete.

MotoGP 2026: Goiânia no centro do mundo
O retorno do MotoGP ao Brasil, em 2026, não representa apenas a retomada de uma etapa no calendário internacional. Trata-se de um reposicionamento estratégico do País dentro de uma das principais competições do esporte a motor, após mais de duas décadas de ausência.
Goiânia foi escolhida para sediar essa retomada, e durante três dias, passa a concentrar atenções de equipes, pilotos, patrocinadores e público de diferentes partes do mundo. A expectativa é de um público entre 150 mil e 200 mil pessoas ao longo do fim de semana, em um evento que combina competição, entretenimento e impacto econômico direto na cidade.
A etapa brasileira integra um calendário global com 22 corridas distribuídas por diferentes continentes e reúne as principais fabricantes do motociclismo mundial, como Ducati, Yamaha, Honda e KTM. Na categoria principal, o MotoGP, as motos ultrapassam os 340 km/h e exigem alto nível técnico dos 22 pilotos que compõem o grid.
Além da categoria principal, o fim de semana inclui as disputas da Moto2 e da Moto3, que funcionam como base de formação e transição para o nível mais alto da competição.
A programação começou na sexta-feira, 20, dedicada, dedicada aos treinos livres, quando equipes e pilotos ajustam equipamentos e estratégias. No sábado, 21, o foco passa para as classificações, que definem o grid de largada, e para a corrida sprint, disputa mais curta que já distribui pontos no campeonato e aumenta a pressão competitiva antes da prova principal.
O domingo concentra o auge do evento, com as corridas da Moto3 e Moto2 ao longo do dia e, às 15h, o Grande Prêmio do Brasil de MotoGP, com cerca de 31 voltas. Para receber a etapa, o Autódromo Internacional Ayrton Senna passou por um amplo processo de modernização, com investimento de aproximadamente R$ 250 milhões. As intervenções incluem alargamento de trechos da pista, reestruturação das áreas de escape, atualização das caixas de brita, modernização do paddock e construção de uma nova torre de controle, além da implantação de sistemas técnicos compatíveis com os padrões internacionais da categoria.
A operação do evento também mobiliza uma logística complexa. O acesso às imediações do autódromo será restrito, com prioridade para motocicletas e transporte coletivo. Linhas especiais de ônibus partem de terminais estratégicos na cidade, enquanto bolsões de estacionamento foram organizados em regiões como Jardim Goiás e Park Lozandes.
Fora da pista, a cidade também entra no clima da competição. O Estádio Serra Dourada recebe o Fan Fest oficial, com telões, atrações interativas e programação cultural, ampliando a experiência para além do circuito.
O impacto econômico já é perceptível antes mesmo do início das atividades. A rede hoteleira opera próxima da ocupação máxima, com diárias elevadas pela alta demanda, e a estimativa é que o evento movimente mais de R$ 800 milhões na economia local, impulsionando setores como turismo, alimentação, transporte e serviços.

Um brasileiro de volta ao grid
O retorno da MotoGP ao Brasil também marca a presença de um brasileiro na categoria principal após quase duas décadas. Aos 21 anos, o paulista Diogo Moreira chega à elite do motociclismo mundial após conquistar o título da Moto2 na temporada anterior e garantir vaga na equipe Honda LCR.
Para o piloto, a etapa em Goiânia carrega um significado que vai além da disputa esportiva. “Estou muito contente, é um sonho realizado. Ainda mais na categoria principal da MotoGP.”

Depois de anos competindo na Europa, correr no País de origem adiciona um componente emocional ao momento. A expectativa, segundo ele, é transformar a oportunidade em desempenho na pista. “Depois de tantos anos morando na Europa, voltar a correr no Brasil me deixa muito contente. Vou dar o meu melhor”, conclui.













