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Riscos invisíveis no agronegócio goiano

Explosões, gases tóxicos e soterramento estão entre as principais ameaças do armazenamento de grãos em silos

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
fevereiro 7, 2026
em Negócios
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Riscos invisíveis no agronegócio goiano
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Por Rafael Mesquita 

Goiás é um dos maiores produtores de grãos do Brasil e abriga milhares de silos de armazenamento, estruturas essenciais para a conservação da safra, mas que também escondem riscos imperceptíveis que já ocasionaram acidentes graves, inclusive no Estado.       

De acordo com o gerente de negócios da Enesens, empresa especializada em detecção de gases em indústrias, Lucas Rodrigues, dados mostram que, entre 2009 e 2020, foram contabilizadas pelo menos nove mortes em Goiás relacionadas a acidentes em silos e armazéns de grãos. Ele destaca um caso específico ocorrido em Catalão, em 2016, quando um trabalhador morreu ao cair em um silo. “A empresa foi responsabilizada por falhas de segurança no ambiente de trabalho”, relata Lucas. 

Lucas

No mesmo período, há registros de mais de uma centena de trabalhadores que perderam a vida em acidentes envolvendo silos no País, muitos deles por asfixia ou explosões. Mas acredita-se que os perigos associados a essas operações ainda são subestimados e exigem uma abordagem técnica mais rigorosa.

Os silos de grãos são caracterizados como espaços confinados e estão sujeitos, principalmente, à presença de gases perigosos e ao acúmulo de poeiras combustíveis. O especialista em segurança de processos e CEO da Enesens, Alexandre Sá, explica que os silos são perigosos porque combinam três riscos letais em um mesmo espaço. Primeiro, o invisível das explosões. “A poeira dos grãos em suspensão funciona como combustível, onde uma simples faísca pode causar um desastre”, afirma. Um aspecto crítico desse risco é o efeito dominó: uma explosão inicial, muitas vezes de menor intensidade, pode levantar camadas de poeira depositadas em estruturas e provocar explosões secundárias muito mais severas, ampliando drasticamente os danos humanos e materiais.

A segunda ameaça apontada por Sá é a biológica, em que a decomposição dos grãos consome o oxigênio e libera gases tóxicos, criando uma armadilha invisível para quem entra em um silo sem proteção. Por fim, ele destaca o risco físico de engolfamento, em que a massa de grãos atua como “areia movediça”, causando soterramento, asfixia e morte por sufocamento. 

Os silos de grãos são operados principalmente por cooperativas agrícolas  (armazenam o produto para os produtores cooperados), tradings e agroindústrias (empresas que compram, negociam, exportam e processam grãos em larga escala) e produtores rurais ou fazendas com infraestrutura própria (ainda em menor número na comparação com as cooperativas e grandes grupos). 

Em Goiás, os municípios que têm a maior quantidade de silos instalados são aqueles em que estão as maiores produções de grãos. Lucas Rodrigues destaca a região conhecida como Sul Goiano, que possui mais de 70% da produção estadual e abrange municípios como Rio Verde, Jataí e Goiatuba. O gerente de negócios ainda cita a região do Leste Goiano, com forte presença do Entorno do Distrito Federal.

Prevenção e sustentabilidade

 A prevenção desses cenários de risco passa, necessariamente, pelo monitoramento contínuo da atmosfera interna dos silos. Sensores de gases permitem acompanhar em tempo real as concentrações de oxigênio, CO₂, CO, H₂S e metano, enquanto sistemas específicos avaliam níveis críticos de poeira em suspensão. Esses dados possibilitam alarmes precoces e ações automáticas, como acionamento de ventilação de emergência ou bloqueio de equipamentos, antes que o risco evolua para um acidente. 

O especialista em segurança de processos ainda avalia que toda unidade deve possuir uma Dust Hazard Analysis (DHA), na tradução, Análise de Risco de Poeira Combustível, bem executada, que caracterize corretamente os cenários e fundamente as decisões de engenharia, operação e investimentos. 

Alexandre Sá afirma que é fundamental a gestão das fontes, não apenas elétricas, mas também mecânicas e operacionais. “Superaquecimento de rolamentos, atrito em transportadores, eletricidade estática e trabalhos a quente precisam ser rigidamente controlados por procedimento e monitoramento técnico”, explica.

Do ponto de vista operacional, ele destaca que é essencial o rigor nos procedimentos de segurança, especialmente em entradas de trabalhadores em silos e outros espaços confinados. Por fim, o especialista afirma que nenhuma medida técnica se sustenta sem pessoas capacitadas e governança clara. “Treinamento específico em poeiras combustíveis, definição de responsabilidades, planos de emergência e auditorias periódicas são indispensáveis”, avalia. 

O gerente de negócios da Enesens, Lucas Rodrigues, afirma que a infraestrutura do setor ainda está longe de acompanhar a evolução apresentada pela produção de grãos no País. “Isso contribui para práticas de trabalho mais arriscadas, falta de equipamentos modernos de proteção e condições de operação abaixo do ideal”, acredita.  

Segundo ele, a atuação técnica e os protocolos de segurança ainda precisam ser mais amplos para reduzir definitivamente os acidentes graves registrados no setor. “A verdadeira prevenção exige uma mudança cultural em que a segurança de processos não seja apenas uma resposta ao acidente, mas a base de toda a operação logística e produtiva.  Segurança em silos não é apenas conformidade legal, é proteção da vida, do patrimônio e da continuidade do negócio”, afirma Alexandre Sá. 

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