Hoje, quase tudo pode ser registrado. Conversas, áudios, imagens, silêncios. O que antes ficava restrito à intimidade, agora, cabe em um print e, muitas vezes, em um processo judicial. A pergunta que quase ninguém faz é simples e desconfortável: quando tudo pode virar prova, a intimidade ainda existe? Ou passamos a viver sob a lógica de que qualquer fragmento da vida privada pode ser arrancado do contexto, exposto e convertido em verdade jurídica?
Com o surgimento das redes sociais, nas quais as pessoas passaram a expor a própria vida em detalhes e até a firmar negócios, acordos e decisões relevantes, criou-se um terreno fértil para conflitos. Um verdadeiro calcanhar de Aquiles. E aqui não cabe o argumento fácil do “quem não deve, não teme”. O problema não é moral. Não é sobre certo ou errado. É sobre o que se perde quando tudo se torna registrável.
O que era íntimo virou prova. E isso não aconteceu de forma abrupta, mas silenciosa, normalizada. Passamos a registrar tudo: cada passo, cada conversa, cada desabafo. O que raramente se questiona é até que ponto esses fragmentos suportam o peso de uma verdade inteira.
O passado, hoje, nunca está realmente enterrado. Ele permanece arquivado, pronto para ressurgir. Prints, conversas íntimas e mensagens reaparecem deslocados do contexto, contando histórias feitas de recortes, desconectadas de um cenário maior e, muitas vezes, completamente dissociadas da verdade emocional dos fatos.
Provas digitais quase nunca contam a história inteira. Elas congelam um instante e o apresentam como totalidade. Um recorte vira narrativa. Um trecho vira versão. E, diante disso, surge uma pergunta inevitável: a Justiça analisa a prova ou acaba confiando na forma como ela foi apresentada?
Mesmo quando o abuso é reconhecido, o dano já está feito. A exposição não se desfaz. E isso não é uma falha técnica; é estrutural. O processo não reconstrói vidas. Ele organiza versões, seleciona fragmentos e, ao final, declara qual narrativa será considerada legítima. A intimidade deixa de ser vivida e passa a ser argumentada. O processo se transforma em palco.
A exposição raramente é equilibrada. Um lado quase sempre perde mais. E, nesse cenário, a intimidade deixa de ser um direito universal e passa a funcionar como um privilégio reservado a quem nunca teve sua vida convertida em arquivo.
No fim, talvez o problema não seja apenas a exposição. O problema é a naturalidade com que ela acontece. O erro não foi registrar tudo. Foi aceitar que isso fosse normal.

Hellen Vitória Santana Neves,
Advogada associada no escritório Dênerson Rosa Sociedade de Advogados.














