Quero usar este espaço na revista Leitura Estratégica para, eventualmente, falarmos da nossa goianidade, cultura e formação da nossa sociedade. Hoje, vou abrir com um ícone da literatura brasileira, nosso Bernardo Élis, que não foi apenas o maior escritor goiano do século XX, foi, sobretudo, o primeiro a revelar Goiás ao Brasil sem pedir licença e sem pedir desculpas.
A obra de Bernardo Élis não buscou embelezar o sertão, mas expô-lo, sem ser o sertão fictício, heroico ou folclórico, mas o sertão verdadeiro, bruto, duro, violento, desigual e humano. Aliás, em nossas conversas com avós e outros antepassados, podemos sentir o cheiro desta literatura, que parece distante, mas tem traços da nossa vida e história.
Contando um pouco dele, Bernardo nasceu, em 1915, na antiga Vila Boa de Goiás, e faz parte de uma geração que viveu a transição mais radical da história do Estado. Ele presenciou o fim do ciclo colonial tardio (pois o começo do século passado ainda tinha resquícios do Brasil antigo em nossa sociedade, apesar de já estarmos na Era Republicana), a decadência da antiga capital e o nascimento de Goiânia, inaugurada como promessa de modernidade em meio a um território.
Viveu um Goiás que deixava de ser fim de mundo para se tornar passagem, estrada, plantação e boiada – e começava a despertar um modelo econômico que se firma de meados do século para frente. Depois, testemunhou a construção de Brasília, em 1960, que deslocaria definitivamente o eixo político e simbólico da região. Goiás entra no mapa –, meio que de carona.
A literatura de Bernardo nasce nessa fratura histórica. Do Goiás velho (e não estou falando da cidade) para o Goiás novo. Enquanto o discurso oficial falava em progresso, integração e futuro, Bernardo Élis registrava o que permanecia intacto: o coronelismo, o abandono, a brutalidade cotidiana e a solidão humana.
Em seu livro mais emblemático, “O Tronco”, de 1956, o autor marca Goiás na literatura nacional, com contundência, mostra o violento interior brasileiro. Merece a atenção como livro fundamental para ser goiano. Não é um episódio local ou regional. É a formação da sociedade brasileira na veia, daquele mundo rural dominante e o poder político, o Brasil que se tinha na forma crua e nua – em letras goianas que ganharam o mundo da literatura.
Como ele não escreveu para agradar os poderosos, agradou o mundo da literatura. Ele escreveu para testemunhar e transcendeu Goiás. Gosto de duas definições, não sei onde li, que, em Bernardo Élis, “cada frase carrega o peso do silêncio que dominava a vida no interior”, e que ele está na galeria dos grandes intérpretes do Brasil, sentado ao lado de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa. Eles compreenderam e traduziram o interior – o núcleo formador do Brasil.
Bernardo foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1975, um marco histórico. O autor se tornou o primeiro e único goiano a ocupar uma cadeira na instituição que simboliza o reconhecimento máximo da literatura nacional. Não foi uma conquista pessoal, foi a admissão formal de que o Brasil também se escreve a partir do Centro-Oeste.
Bernado e sua escrita, seca, econômica e precisa, são mais citados que lidos – infelizmente. Coloquem em sua lista de leitura ou releituras, em 2026, com urgência, O Tronco. Não é um convite, é uma intimação – precisamos pagar essa dívida com Bernardo Élis. Vamos fazer esse acordo?

Juscimar Ribeiro,
Advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional














