Em 2026, teremos a 23ª Copa do Mundo de Futebol, curiosamente, nos Estados Unidos, com algumas poucas partidas no México e no Canadá. No intervalo de quatro anos entre uma edição do evento e a próxima, o mundo costuma esperar ansioso. Mas não sei se, desta vez, a competição esportiva baterá a audiência de outra Copa do Mundo, a geopolítica, com ameaças, invasões, sequestros e outros pontos inimagináveis para a boa diplomacia das últimas décadas. Aliás, pode-se dizer que a alta diplomacia se aposentou e o mundo agora virou um videogame – o ganha-ganha de território está liberado.
E os Mbappés ou Cristianos Ronaldo da bola vão ficar meio que em segundo plano. Quem disputará o Puskas (gol do ano) e a taça ‘Fifa World Cup Trophy’, aquela em ouro maciço com uma faixa de malaquita (pedra valiosa verde), serão os atacantes do times de guerra dos EUA, Donald Trump; da China, Xi Jinping; da Rússia, Vladimir Putin; e de Israel, Benjamin Netanyahu.
Quanto aos chineses, mesmo sem entrar em campo de batalha, ainda, é bom colocá-los, pois, mesmo sem tocar na bola (ou na bala), influenciam todo o esquema de jogo do tabuleiro mundial.
O Donald, o XI, o Vladimir e o Benjamin estão pouco olhando para regras do jogo. Querem jogar e conquistar, usar a mídia ou, se precisar, mísseis. São Napoleões modernos que pouco temem o cancelamento. Um acaba sendo meio que espelho do outro, só muda o CPF e o endereço. O Xi ainda não mostrou a cara nessa mesa, mas… o jogo ainda está no começo.
E cadê a Europa? Bonitinha, arrumadinha e coroca, luta pela narrativa correta da paz. Por quê? Por que as guerras em seu quintal a ensinaram muito sobre essa dor ou é por que não tem balas, aviões e bombas suficientes para uma temporada inteira da maratona da morte?
O economista francês Thomas Piketty, autor de É Possível Salvar a Europa?, aponta que a gigante desigualdade no século 19 levou a uma forte concorrência entre potências, resultando em autodestruição e guerras. Ele vai mais fundo, apontando que as guerras reconfiguram o mapa e a economia, e que conquistar faz parte do capitalismo, mesmo que com um custo humano devastador.
A Europa é conservadora. Nesta semana, duas disputas da União Europeia foram simbólicas. Com o Mercosul, após 25 anos de negociações, assinou um acordo histórico que, em menos de uma semana, já deu sinais de que pode travar o tratado.
Mas foi contida com os EUA, que acabaram de lançar uma ONU paralela com 59 países, tendo Trump como CEO, e que fez pior, centenas de piadas, ironias e ameaças públicas aos europeus, tendo como palco a Suíça, o americano pediu para colocar preço na Groenlândia, como se fosse um lote desmatado.
A paz virou discurso. Enquanto o mundo entra na Copa do Mundo da geopolítica em modo mata-mata, felizmente, a Europa ainda prefere o empate moral ou até mesmo amarelar. Diante do caótico quadro, a Europa se conter é bom para o mundo – pois, se ela tivesse um Napoleão na cadeira de controle, o mundo explodiria em uma guerra mundial.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














