O Brasil vive um momento paradoxal. Enquanto o mercado de trabalho celebra a menor taxa de desemprego da história recente e um dinamismo sem precedentes, algumas vozes do empresariado insistem em um discurso anacrônico, culpando programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, por uma suposta escassez de mão de obra. Essa narrativa, não apenas distorce a realidade com desinformação, mas também serve como uma cortina de fumaça para a própria incompetência gerencial de quem a propaga.
Os dados pintam um quadro claro e inegável. O ano de 2025 fechou com uma taxa de desemprego de 5,2% em novembro, o menor patamar já registrado desde o início da série histórica do IBGE, em 2012, com projeções de queda para menos de 5% em dezembro. A renda média do trabalhador avançou 4,5% no período, demonstrando não apenas mais empregos, mas empregos de melhor qualidade. Longe de um cenário de apatia, o que se vê é um mercado aquecido e competitivo. Prova disso é o recorde de nove milhões de trabalhadores que pediram demissão voluntariamente nos últimos 12 meses, elevando a taxa de rotatividade a 36%, a mais alta já registrada.
Esse movimento massivo de demissões voluntárias não indica uma aversão ao trabalho, mas sim uma busca ativa por melhores oportunidades. Como bem explicou o economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence: “Se a pessoa está se desligando, muito possivelmente é para se admitir em outro lugar em condições mais vantajosas”. Em um cenário de pleno emprego, o poder de barganha se desloca para o trabalhador. Profissionais qualificados e mesmo os de baixa qualificação, agora com mais opções, não se veem mais obrigados a aceitar condições precárias, salários aviltantes ou ambientes de trabalho tóxicos. Eles estão trocando de emprego por melhores salários, benefícios, flexibilidade e, acima de tudo, dignidade. Trata-se de uma concorrência sadia e bem-vinda, que força as empresas a evoluírem.
É neste contexto que a falácia contra o Bolsa Família se torna mais evidente. Empresários queixam-se de não encontrar funcionários, apontando o dedo para o benefício social. No entanto, os fatos contam uma história completamente diferente.
Em 2025, mais de dois milhões de famílias deixaram o programa justamente por terem aumentado sua renda, em sua maioria, por meio de um novo emprego formal ou abertura de um pequeno negócio. Desde 2023, o número chega a impressionantes 8,6 milhões de famílias que saíram do programa por melhoria de sua condição financeira. O Bolsa Família, portanto, funciona como uma ponte para a autonomia, e não como uma âncora na dependência.
A crítica ao Bolsa Família é, na verdade, uma confissão de fracasso. Os empresários que se apegam a essa narrativa são aqueles que perderam a capacidade de competir no novo mercado de trabalho. Em vez de modernizar suas práticas de gestão, oferecer salários competitivos e criar um ambiente que atraia e retenha talentos, eles preferem culpar os mais vulneráveis e clamar por um passado de desemprego em massa, no qual a mão de obra era abundante e barata.
Achar que a solução para seus problemas de contratação é a extinção de programas sociais não é apenas um erro de diagnóstico, é a revelação de um modelo de negócio que depende da miséria alheia para prosperar. E esse modelo, felizmente, está com os dias contados.

Marcos Freitas, Doutorando em Turismo, Mestre em Finanças, economista e sócio-fundador da AM Investimentos.














