Por Rafael Mesquita
O Jackson Abrão é conhecido pela maioria dos goianos. Mas o início da história do garoto criado pela avó paterna, Nazira Abrão, em Catalão, poucos sabem. “O carinho com que eu fui criado por ela me fez ser uma pessoa muito mais feliz”, emociona-se. Jackson se recorda do amor e do cuidado que recebia na infância. “Ela me acordava todos os dias na hora certa para ir à escola, se preocupava com todos os detalhes, desde a roupa até a comida que eu gostava”, explica.
Ele perdeu a mãe, Abadia Abrão, bem cedo: faleceu quando Jackson tinha apenas um ano e cinco meses de vida. Foi então que a avó pediu ao pai da criança que a deixasse criá-lo. Assim, Jackson viveu com dona Nazira toda a infância e grande parte da adolescência.

Aos 15 anos, em uma conversa com três colegas, decidiram ir a um serviço de som da cidade. Um diretor da rádio Cultura de Catalão ouviu a locução do garoto e o contratou para fazer para ganhar meio salário mínimo. “Dinheiro demais” para um adolescente que nem havia ainda concluído o ginásio.
Em dezembro de 1963, chegou o momento de se despedir da cidade natal. Jackson se mudou para Goiânia, aos 17 anos, para seguir os estudos. O afastamento do neto querido abalou a avó que tanto o amava. “Ela não aceitou muito bem a minha mudança e infelizmente faleceu um ano depois. Se eu pudesse voltar no tempo, teria ficado mais uns anos em Catalão com ela”, recorda com tristeza.
Em Goiânia, novos desafios estavam por vir. Jackson foi morar na casa de uma tia, no Setor Aeroporto, e passou no exame de admissão para estudar no Colégio Lyceu, no Centro da cidade. Na capital, o jovem catalano tratou de logo procurar emprego. Como tinha experiência como locutor de rádio, candidatou-se a duas vagas de noticiarista, uma na Rádio Universitária, emissora da UFG, e outra na Rádio Brasil Central, do sistema público estadual de comunicação. Foi aprovado em ambas.

No teste da Brasil Central, que acabou escolhendo, a voz fina da época proporcionou um episódio que ele relembra aos risos.
Ao chegar ao prédio da emissora e conversar com o guarda, o tom fino chamou a atenção. Do tipo gozador, o vigilante angariou aqui e ali testemunhas para o teste. Ao sentar-se ao microfone e ler as notícias com tom grave e dicção perfeita, Jackson deixou todos boquiabertos. “Eram umas 15 pessoas. Eu era tão inocente que, só depois de muito tempo, fui entender tudo.”
Em pouco tempo, a atuação na emissora estatal chamou a atenção de outro veterano, o jornalista Arthur Rezende.
Era julho de 1964, quando Arthur, então na Rádio Anhanguera, sugeriu que Jackson se tornasse locutor da emissora radiofônica da Organização Jaime Câmara. Convite feito e aceito. Satisfeito com o trabalho do locutor, Rebouças Câmara, um dos fundadores da empresa, sugeriu ao irmão, Jaime Câmara, que contratasse Jackson também para a TV Anhanguera, fundada no ano anterior. A partir de 12 de outubro de 1964, os telespectadores passaram a conhecer o rosto da voz marcante.

Jackson Abrão, o Homem da Notícia
Foi na nova função que a informação passou a ser ainda mais importante na trajetória. Na emissora, poucos anos mais tarde filiada à Rede Globo, Jackson tornou-se, além de apresentador, um jornalista comprometido com a apuração de fatos. Praticamente sozinho, apenas ao lado do jornalista José Divino, que também atuou por anos na equipe da TV Anhanguera, fazia entrevistas, reportagens e compilava informações para ir ao ar na TV e no rádio. “Quando a TV se tornou afiliada da Globo, a Anhanguera já era líder de audiência, porque produzia conteúdo regional e reproduzia os melhores programas de outras emissoras nacionais”, ressalta.

Momentos marcantes estiveram presentes na carreira do jornalista nesse período. Pouco mais de um mês após a contratação para a TV, em novembro de 1964, o governador Mauro Borges foi deposto pela ditadura militar. Eram anos de “chumbo”, de que Jackson se recorda muito bem: “Choveu de telefonema na redação, porque os aviões sobrevoavam sem parar o Palácio das Esmeraldas. O José Divino foi às ruas e me mandou o decreto de intervenção federal em Goiás. Eu li ao vivo na TV. Pouco depois, fui à sala do seu Jaime Câmara, e já havia um coronel do Exército lá”.

O jornalista ainda viveu outros períodos de tensão nos tempos da ditadura. Jackson foi levado duas vezes para a unidade da Polícia Federal em Goiânia. “Primeiro, porque achavam que eu havia noticiado a morte do líder estudantil (de oposição), Tarzan de Castro. Depois, porque um dia ao sair do trabalho, vi o sequestro de outro líder estudantil, o José Elias. Os militares mandaram eu acompanhá-los e me ameaçaram para que eu não revelasse o que vi. Era uma época muito ruim, é a memória do terror”, destaca.
Jackson estava presente na chegada da TV colorida a Goiás. Na década de 1970, ele participou da transmissão desse marco na comunicação do Estado. “O coordenador artístico da TV combinou comigo que, para surpreender os telespectadores, faríamos os 30 segundos iniciais do editorial em preto e branco e o restante seria com as imagens coloridas”, lembra.
O homem da notícia em Goiás foi quem teve a ideia de “pensar grande” nos últimos anos de vida do fundador de Goiânia, Pedro Ludovico Teixeira. Era final dos anos 1970, e a convite de Jackson, que havia se tornado diretor na TV, Ludovico e o primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, fizeram um passeio pela capital. Visitaram o Centro, vários bairros da cidade, mas foi no morro da Serrinha que o fundador de Goiânia revelou : “Foi nesse local que eu defini que a nova capital seria aqui”. Jackson acredita que esse foi o maior trabalho já realizado por ele. “Foi o meu maior feito jornalístico”, avalia.

O convívio com outras personalidades políticas da história de Goiás também estão no currículo. No início dos anos 1980, comandou um debate político histórico entre o então prefeito de Goiânia, Índio Artiaga (apoiador do governo militar) e Íris Rezende (que seria candidato a governador pela oposição). “Gerou uma repercussão muito grande na cidade. Após o fim do debate, houve até carreata nas ruas”, afirma.
Com o ex-governador Maguito Vilela, a relação era bem mais próxima. “Jogávamos bola juntos. Uma vez me convidou até para ser candidato a deputado federal, o que recusei. Era uma pessoa muito simples, éramos amigos”, revela.

O trabalho como diretor de jornalismo da TV Anhanguera também rendeu bons frutos. Um deles com destaque internacional. Lilia Teles, que já foi correspondente da TV Globo em Nova York e é uma das principais repórteres da emissora carioca. No final dos anos 1980, ela chegou à TV Anhanguera para ser apresentadora, mas Jackson percebeu que a jovem tinha potencial para a reportagem. “Considero o meu maior mérito no comando da TV. Anos depois, negociei a ida dela para a TV Globo e deu certo”, explica. Depois de Lilia, outros repórteres contratados por Jackson conquistaram o país, entre eles: Cleisla Garcia e Luciano Cabral.
São muitas as conquistas para esse jornalista que aprendeu a profissão na prática e depois se aperfeiçoou ao longo do tempo. “Após eu concluir o terceiro ano do segundo grau, o presidente Castelo Branco baixou um decreto tornando jornalista profissional quem já exercia a profissão. Ganhei um curso superior de bandeja”, brinca. Mas Jackson reforça a necessidade de sempre se qualificar. “Depois disso, a empresa investiu muito em mim, fui ao Rio de Janeiro, participei de cursos com jornalistas do mundo inteiro, o que me deu grande amplitude”, acredita.

Família e cotidiano
O jornalista veterano ainda segue sendo um espectador assíduo da TV aberta. A preferência é para os telejornais, em que o experiente profissional faz as devidas observações. “As emissoras atualmente fogem dos assuntos mais carregados de economia, política. Preferem trazer notícias de crime, violência. Infelizmente. Isso me incomoda como telespectador”, avalia.
A rotina do jornalista segue com a leitura diária de jornais impressos como: O Popular, Estadão e Folha. Atividade importante que o mantém bem informado e o ajuda a se preparar melhor para o programa Jackson Abrão Entrevista, que comanda semanalmente no portal do Jornal O Popular. “Ainda peço para que o convidado chegue meia hora antes para conversarmos e não haver escorregões durante a entrevista. Me preparo, leio antes para poder explorar melhor os assuntos”, garante.
Casado há 56 anos com a esposa Néia Gomes Carvalho Abrão, Jackson tem três filhos e quatro netos. As paixões da vida do vovô. “Domingo, eles vêm aqui em casa, brincar, tomar café e comer biscoito” , se diverte.
Além da rotina com a família, uma das maiores alegrias do jornalista é poder se sentir querido ao andar nas ruas de Goiânia. “É muito gratificante perceber como a velha guarda gosta de mim. Quando me encontram na padaria e no restaurante, me dizem que eu tenho credibilidade. Isso é muito bom”, afirma.
Reconhecimento é fruto das escolhas de vida. “Sempre adotei como lema a célebre frase do filósofo chinês Confúcio: escolha a profissão que você ame e não terá que trabalhar um único dia”, reflete. “Quando se faz o que gosta, o tempo fica no esquecimento”, conclui.

Texto: Rafael Mesquita.
Fotos: Arquivo pessoal.













