O tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil é mais que uma medida: é um choque geopolítico que obriga as empresas e o Estado a recalibrarem estratégia comercial. A decisão executiva que elevou as alíquotas em torno de 50% entrou em vigor no início de agosto e, mesmo com centenas de isenções, alterou custos, cadeias logísticas e previsibilidade das operações. É preciso encarar o problema com pragmatismo corporativo: risco e oportunidade precisam andar juntos.
Exportadores agroindustriais — do café à carne — veem mercados tradicionais encarecerem e contratos perderem competitividade. Nos EUA há pressão por exclusões para itens de consumo; no Brasil, a urgência é diversificar compradores e agregar valor para reduzir sensibilidade a tarifas ad valorem. O diagnóstico técnico existe, a resposta exige diplomacia econômica e coordenação empresarial.
O impacto será desigual: café e carne, com forte presença nos EUA, correm risco imediato de perda de receita; pequenas e médias empresas, menos capitalizadas, são as mais vulneráveis. A curto prazo, há risco de pressão inflacionária em produtos básicos e necessidade urgente de políticas de apoio setorial.
A Ficomex 2025 torna-se instrumento prático nessa agenda. Marcada de 4 a 6 de setembro em Goiânia e com mais de cem países representados, a feira deixa de ser apenas vitrine e vira marketplace tático: rodadas de negócios, missões e mesas setoriais podem acelerar redirecionamentos e viabilizar contratos que limitem perdas no mercado norte-americano. Para empresas, a presença é ação mitigadora.
Três orientações para quem vai à Ficomex. Primeiro: oferecer pacotes comerciais de curto prazo para compradores alternativos, com logística e frete negociados para reduzir custo unitário. Segundo: formar consórcios regionais para compartilhar frete, certificações e exigências fitossanitárias — escala conta. Terceiro: negociar linhas de hedge e seguro exportação com bancos públicos e privados para proteger caixa e margem.
No plano público-privado, a pauta deve incluir linhas especiais de financiamento, simplificação de exportação e promoção dirigida em mercados emergentes. A disputa já alcançou a OMC — Brasília pediu consultas —, mas a resposta técnica e comercial é tão urgente quanto a diplomacia; retaliações automáticas podem fechar portas.
A mensagem final ao empresariado é prática: choque externo é teste de governança. Quem transformar alcance internacional em execução — usar a Ficomex para fechar rotas alternativas, estruturar parcerias logísticas e investir em agregação de valor — não só mitigará o impacto como sairá mais competitivo. Goiânia pode ser, em setembro, o laboratório de uma resposta brasileira que combina pragmatismo, negociação e ação empresarial.

Rubens Fileti,
presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg).