Inflação alta, custos operacionais apertados, mão de obra cara e escassa, inadimplência recorde e taxas de juros proibitivas. O ano passou, mas as dores empresariais estão no mesmo prontuário do empresário. O 2026 começa com empresários pressionados por um cenário financeiro desafiador. Muitos encerraram 2025 com margens apertadas, vendas suficientes para manter a operação, mas sem sobra de caixa.
Os juros não devem cair na velocidade esperada, a inadimplência segue elevada e os custos operacionais permanecem em alta. Nesse contexto, a relação das empresas com o crédito e com os bancos deixa de ser apenas uma questão de captação de recursos – e passa a ser uma decisão de governança, estratégia e sobrevivência.
Fica o alerta: O grande risco é confundir crédito com solução imediata para o aperto financeiro. Em algumas situações, ele é alívio temporário; em outras, é uma porta de entrada para um ciclo de endividamento progressivo. Separar o crédito barato do crédito caro significa entender o propósito de cada operação, o custo real no tempo e o impacto sobre o fluxo de caixa.
Crédito barato é aquele que financia produção, capital de giro estruturado, expansão racional e investimentos que retornam valor. Crédito caro, por outro lado, costuma nascer de decisões reativas: antecipação de recebíveis sem planejamento, uso constante de cheque especial empresarial, rotativo, parcelamentos sucessivos e renegociações improvisadas.
Nesse ponto, a analogia com a saúde do corpo humano é inevitável.
Há empresas que só procuram o banco quando a situação já está crítica – como quem só vai ao médico quando a dor se torna insuportável. A boa gestão financeira, assim como a medicina preventiva, depende de acompanhamento contínuo: indicadores, histórico de endividamento, análise de prazos, origem das despesas e capacidade real de pagamento. Tratar apenas a dor do momento pode aliviar o sintoma, mas agrava a doença no médio prazo.
Quando as contas caminham para um gargalo, o primeiro passo não é pedir mais crédito, mas, primeiro, reorganizar informações. Mapear dívidas, identificar quais geram valor e quais drenam caixa, renegociar prazos, alongar passivos caros e proteger os ativos produtivos. Em muitos casos, o problema não é o volume da dívida, mas a combinação equivocada de taxas, prazos e garantias.
Empresas que tratam crédito como ferramenta estratégica conseguem reconstruir previsibilidade; aquelas que o utilizam como válvula de escape ampliam o risco.
A governança financeira ganha centralidade nesse novo ambiente. Decisões que antes ficavam restritas ao gestor financeiro passam a exigir visão compartilhada entre sócios, contabilidade e assessoria especializada. O banco deixa de ser apenas fornecedor de recursos e passa a ser parceiro de negociação, desde que a empresa chegue preparada, com dados, projeções e clareza de propósito. Bom relacionamento também conta muito.
Em 2026, o crédito continuará existindo para quem sabe usá-lo. A diferença estará no grau de consciência. Empresas que compreendem seus números, priorizam disciplina financeira e fazem prevenção antes da crise tendem a separar o joio do trigo. As demais continuarão tratando sintomas até que o corpo não aguente mais. Amigo empresário, qual seu diagnóstico?

Fabio Ferreira, CEO da RCE e atuação em Conselhos de Administração, Conselhos Consultivos e Mentor.














