Por Rafael Vaz
Uma nova molécula começa a ocupar espaço na agenda estratégica do País. O biometano, gás renovável obtido a partir da purificação do biogás gerado por resíduos orgânicos, avança no Brasil como solução pragmática para descarbonizar a indústria e o transporte sem exigir ruptura tecnológica imediata. Em Goiás, ele deixa de ser hipótese e passa a integrar política pública, planejamento industrial e estratégia de desenvolvimento.
A autorização para implantação de 501 ônibus movidos a biometano e GNV na Região Metropolitana de Goiânia, formalizada pela Deliberação nº 014/2025 da Câmara Deliberativa do Transporte Coletivo, é apenas a face mais visível de uma mudança estrutural que conecta mobilidade urbana, economia circular e competitividade industrial. Mas o movimento vai muito além da frota.
Ativo estratégico
Antes de qualquer projeção, é preciso compreender o que está em jogo. O biometano é o biogás purificado, com concentração superior a 90% de metano, tornando-se quimicamente equivalente ao gás natural. Isso significa que pode ser utilizado em motores ciclo Otto, em processos industriais e na geração de energia aproveitando infraestrutura já existente.
Produzido a partir de vinhaça da cana-de-açúcar, dejetos da pecuária, resíduos urbanos e efluentes industriais, ele transforma passivos ambientais em insumo energético.
Segundo a Associação Brasileira do Biogás e do Biometano, o Brasil já conta com mais de 1.600 plantas de biogás, com capacidade de produzir cerca de 12 milhões de m³/dia, e 18 plantas de biometano autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com capacidade de produção de 1,2 milhão de m³/dia. Essa capacidade deve quase dobrar até 2027, chegando a até 2,3 milhões de m³/dia de produção.
“O Brasil é um País de grandes dimensões continentais e, por isso, as áreas de logística e infraestrutura sempre serão gargalos. Isso se intensifica ainda mais porque as grandes infraestruturas estão próximas da costa brasileira, enquanto o potencial de produção de biometano é mais interiorizado. Portanto, existe muito espaço para investimento nessas áreas, o que irá ajudar no crescimento do setor”, afirma Tiago Santovito, diretor-executivo da entidade. “Caso todo o potencial fosse atingido, isso representaria investimentos na ordem de R$ 340 bilhões, com geração de quase 800 mil empregos e mitigação de aproximadamente 650 milhões de toneladas de CO₂ equivalente”, explica.
Goiás: vocação produtiva e gargalo logístico
Em Goiás, a matéria-prima é abundante. O presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial Goiás), Edwal Portilho, o Tchequinho, é categórico ao afirmar que o Estado reúne condições naturais para se tornar polo produtor.
“Produzimos, naturalmente, muita massa vegetal, muita biomassa para soja, milho, cana, e também bastante proteína animal. Os dejetos desses animais são passíveis de produzir biometano. Isso é uma realidade.”
O problema, segundo ele, está na etapa seguinte. “Quando você produz lá na suinocultura em Rio Verde ou numa usina de cana, como é que você transporta esse metano? Você tem que comprimir, colocar em carreta. Gasoduto não é barato. Então. o gargalo, no meu entendimento, é logístico.”
Ele compara a situação ao setor elétrico. “Nós não temos problema de geração de energia elétrica, temos problema de distribuição. Se não houver planejamento adequado, pode acontecer a mesma coisa com o biometano.”
Para Tchequinho, somente projetos integrados, envolvendo grandes usinas e infraestrutura de transporte estruturada, podem garantir escala. “Somente um projeto integrado com as usinas de etanol, pensando num circuito de gasoduto ligando uma a outra. Mas isso é projeto de envergadura, exige recursos internacionais e planejamento muito bem elaborado.”

Transporte como indutor de mercado
É nesse contexto que a decisão do Governo de Goiás ganha relevância estratégica. A incorporação de 501 ônibus movidos a biometano e GNV até 2027 representa cerca de 40% da frota operacional atual da Nova RMTC ou 31% da frota total renovada, que chegará a 1.590 veículos.
Para o subsecretário de Políticas para Cidades e Transportes da Secretaria-Geral de Governo, Miguel Ângelo Pricinote, a medida representa uma mudança estrutural. “Essa transição não é apenas uma troca tecnológica, mas a implementação de um novo paradigma de Realismo Verde, que redefine a matriz energética e conecta a sustentabilidade às vocações econômicas locais”, afirma.
Segundo ele, o Estado dispõe de potencial estimado em 2,2 bilhões de metros cúbicos de biogás derivado da cana e da pecuária por ano. Ao transformar vinhaça e dejetos em combustível, Goiás cria uma cadeia produtiva regional e reduz exposição à volatilidade internacional do petróleo.
“O biometano é um substituto perfeito para o gás natural, permite o uso de motores já consagrados e garante autonomia média de 337 quilômetros, suficiente para a maior parte das operações diárias”, explica.
Ainda que reconheça que o transporte não resolve sozinho a equação da escala produtiva, Tchequinho admite o efeito indutor. “Só isso não resolve, mas não deixa de estimular. Gerando demanda, você estimula a oferta. Se fechar a conta, alguém vai produzir aqui dentro”.
Mesmo diante da ausência de gasodutos físicos amplamente distribuídos, ele argumenta: “Para superar a ausência de gasodutos físicos, o Estado utiliza ‘gasodutos virtuais’ (transporte por carretas GNC/GNL) e sistemas de abastecimento noturno (slow-filling) nas garagens, o que é mais ágil e barato que o reforço massivo das redes elétricas urbanas”, destaca. Por fim, o presidente da Adial Goiás reforça o efeito econômico da política adotada. “A produção local fortalece cadeias produtivas regionais e tem potencial para gerar mais de 2.100 empregos diretos na cadeia de biodigestão no Estado.”

Retorno social
A dimensão ambiental também é central na estratégia. Estudo da Empresa de Pesquisa Energética indica que o biometano apresenta intensidade de carbono de 8,35 gramas de dióxido de carbono equivalente por megajoule, podendo reduzir emissões em até 90% em relação ao combustível fóssil.
Miguel Ângelo Pricinote destaca que os ganhos vão além da redução de CO₂. “A mitigação de material particulado e óxidos de nitrogênio impacta diretamente a saúde pública. Estamos falando de qualidade do ar e redução de doenças respiratórias”, defende.
No caso da Nova RMTC, a estimativa é de retorno social de R$ 47,05 milhões, associado principalmente à economia em gastos públicos com saúde e melhoria do bem-estar urbano.
Indústria, competitividade e energia local
Para o setor industrial, o biometano pode representar alívio estrutural. Segundo Tchequinho, Goiás já enfrenta déficit de biomassa para abastecer caldeiras industriais. “O cavaco de eucalipto estava em torno de R$ 80 alguns anos atrás. Hoje, está na casa dos R$ 600. O custo aumentou muito.”
Ele vê no gás renovável uma alternativa ambientalmente adequada e potencialmente competitiva. “A disponibilidade do metano ajuda economicamente as indústrias. Agora, quanto vai chegar esse biometano na indústria? Depende da localização, da escala e da logística”, diz. A escala, novamente, é a variável decisiva.
O Brasil diante da oportunidade
Para Tiago Santovito, o País vive um momento decisivo. “Até 2027, a capacidade de produção de biometano deve dobrar. E, até 2030, pode chegar a 8 milhões de metros cúbicos por dia”, afirma. Ele ressalta que a Lei do Combustível do Futuro e as metas de descarbonização para produtores e importadores de gás natural devem acelerar investimentos.

Ao analisar o papel do biometano na matriz energética brasileira, o diretor-executivo da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) defende que o País deve apostar na diversificação tecnológica como estratégia de descarbonização do transporte. Para ele, a força do Brasil está justamente na pluralidade de fontes disponíveis.
“O Brasil é muito diverso e plural na geração de energia e é aqui que está a nossa riqueza e diferencial em relação às grandes economias e aos países emergentes. O biometano tem diversas aplicações e seu uso no transporte é complementar ao uso de energia elétrica. O Brasil não precisa adotar uma única tecnologia nem mesmo defender uma única fonte. A riqueza e a segurança energética estão na diversificação das fontes e na criação de um portfólio para que isso traga a redução de emissões nesse setor, que é um dos principais emissores de gases de efeito estufa”, explica.
Sobre a decisão goiana, é enfático. “Goiás saiu na frente ao investir em biometano. Fomenta a indústria local, gera emprego e renda e contribui para a descarbonização de um setor extremamente relevante”, conclui.














