Outro dia, no supermercado, fui pegar minha batata palha de sempre. A embalagem estava mais bonita, moderna, “premium”. Percebi algo: havia menos gramas do que de costume — e o preço permanecia o mesmo. Olhei outras prateleiras — café, biscoito, chocolate, papel higiênico — e vi o mesmo padrão: embalagens crescem por fora e encolhem por dentro. Esse fenômeno tem nome: shrinkflation — a inflação que não aparece no preço, mas no peso do produto. Para o consumidor, quase imperceptível; para quem acompanha a contabilidade e a gestão fiscal diariamente, um reflexo direto do custo de existir no Brasil.
Shrinkflation não é exclusividade do Brasil. Um estudo de 2025 da Keio University, no Japão, analisou mercados internacionais e constatou que muitas empresas preferem reduzir a quantidade do produto em vez de aumentar o preço. O motivo é simples: o consumidor reage muito mais ao aumento de preço do que à redução de quantidade. No Brasil, entretanto, essa prática se torna frequente. O ambiente econômico e tributário cria condições que tornam shrinkflation quase uma rotina, e não uma exceção.
Como coordenador de departamento fiscal, vejo de perto o que o consumidor só percebe no final do mês: insumos que variam de preço de forma constante, transporte caro e imprevisível, impostos que mudam rapidamente, margens apertadas que obrigam empresas a optar entre aumentar o preço ou reduzir a quantidade. Shrinkflation, portanto, não é apenas marketing — é um reflexo das condições econômicas e fiscais que moldam decisões de mercado.
A Reforma Tributária promete simplificação, transparência e redução de distorções. Mas enquanto sua implementação não se consolida, vivemos uma fase de transição marcada por incerteza para formar preços, ajustes silenciosos via tamanho do produto, custos de adaptação e transparência ainda distante para o consumidor. Enquanto a promessa é que os impostos fiquem claros, na prática, o que se percebe é a embalagem maior por fora e menor por dentro.
Quando o produto encolhe e o preço não, não é só o pacote que diminui. É o poder de compra, a confiança do consumidor e, de certa forma, o Brasil que encolhe. Shrinkflation funciona como um termômetro da economia: enquanto não houver redução real do custo Brasil, estabilidade tributária e previsibilidade para empresas, nada impede que embalagens continuem encolhendo silenciosamente.
O que diminui nas prateleiras é visível. O que diminui no bolso e na confiança do consumidor é menos perceptível — mas ainda mais relevante. A shrinkflation mostra, de forma prática, como custos de produção, logística e tributação impactam o dia a dia do consumidor. Observar essas mudanças ajuda a entender melhor o funcionamento da economia brasileira. Porque, no fim das contas, quando a embalagem encolhe e o preço não, não é apenas o produto que diminui — é o Brasil que encolhe também.

Luziano Lima,
Contador, pós-graduado em Auditoria e Planejamento Tributário. Coordenador do Departamento Fiscal da Denerson Rosa Advogados.














