Vivemos um ano com várias forças ao mesmo tempo: juros ainda elevados, sinais de possível afrouxamento monetário no horizonte, eleições presidenciais no Brasil, incertezas na política econômica americana e movimentos globais sobre liquidez que aumentam a volatilidade dos mercados.
Esse mix torna imprescindível que o empresário médio-grande trate a alocação de capital como decisão estratégica, não apenas operacional.
O pano de fundo macro:
– A Selic alta com tendência de fechamento em 2026 a 12,25% (Focus);
– Pouca atração de investimentos externos por alto risco na manutenção/alteração de Governo;
– No plano externo, as decisões e a possível politização do banco central americano (Fed) e de suas ferramentas trazem risco adicional de volatilidade cambial e prêmios de risco em 2026. Isso toca custo e disponibilidade de dólares, linhas internacionais e apetite por risco global.
A consequência prática: custo, oferta e tolerância ao risco
Com juros elevados, o capital bancário tradicional permanece caro e, muitas vezes, com covenants mais rígidos. Em contrapartida, o mercado privado de crédito (FIDC, debêntures, CRA/CRI, nota comercial) cresceu expressivamente como alternativa para empresas que conseguem estruturar fluxo/garantia e oferecer perfil de crédito atraente, especialmente, para empresas com receitas entre R$ 30 milhões e R$ 1 bilhão, o que cria opções, mas também exige preparação (governança, demonstrações limpas, projeções e garantias).
Confira, a seguir, alternativas, alertas e sugestões aos empresários que pretendem captar crédito em 2026. As taxas, prazos e carências seguem informações de mercado observadas nas últimas semanas:
a) Capital de giro via bancos / linha rotativa
Quando usar: necessidade imediata e previsível de caixa para manter operações; sazonalidade curta (picos de vendas).
Prós: rapidez; disponibilidade alta (se o relacionamento bancário for bom).
Contras: custo elevado com juros atuais; pode apertar a margem; covenants e amortizações curtas.
Sinal de uso: se o retorno econômico do estoque/recebíveis for maior que o custo marginal da linha e o PMP for menor do que a liquidação da dívida, é viável.
Quando usar: necessidade imediata e previsível de caixa para manter operações; sazonalidade curta (picos de vendas).
Prós: rapidez; disponibilidade alta (se o relacionamento bancário for bom).
Contras: custo elevado com juros atuais; pode apertar a margem; covenants e amortizações curtas.
Sinal de uso: se o retorno econômico do estoque/recebíveis for maior que o custo marginal da linha e o PMP for menor do que a liquidação da dívida, é viável.
b) Investir em ativos / CapEx
Quando usar: projetos com payback mapeado, retornos superiores ao custo de capital projetado (TIR positivo), ou ganho de produtividade claro (automação, digitalização);
Prós: melhora competitividade e melhora a margem no médio/longo prazo;
Contras: imobiliza caixa; risco de implementação do projeto;
Sinal de uso: TIR do projeto maior que o custo de capital ajustado por risco e cenário eleitoral/ mercado.
Taxa encontrada: de 8% a 20% ao ano
Carência: de um a 24 meses (ou Bullet, conforme o acordo);
Prazo: de três a sete anos;
Tempo de estruturação: de 30 a 90 dias, a depender do projeto de investimento.
c) Operações estruturadas (FIDC, CRA, CRI)
Quando usar: empresas com carteira de recebíveis (FIDC) ou lastro em ativos/contratos que possam ser securitizados (CRA/CRI) e que buscam alongamento e spread competitivo frente ao banco;
Prós: acesso a investidores institucionais, possibilidade de captar por prazos e custos melhores que bancos e em volumes maiores que o tradicional; adaptação do fluxo (recebíveis) ao prazo do investidor. O mercado tem expandido fortemente essas estruturas;
Contras: estruturação e diligência exigem custos e tempo; necessidade de maturidade em governança;
Sinal de uso: previsibilidade nas vendas e nos recebimentos e capacidade de estruturar covenants/garantias;
Taxa encontrada: de 12% a 20% ao ano (pós-fixado)
Carência: de 12 a 36 meses podendo ser bullet
Prazo: de 4 a 6 anos, podendo ser renovado sem liquidação
Tempo de estruturação: de 90 a 120 dias
d) Debêntures (simples ou incentivadas se cabível)
Quando usar: empresas com escala e previsibilidade de caixa, que queiram alongar maturidade e diversificar base de investidores. Também para companhias que tem, no horizonte, objetivo de abrir capital e quer ser visto pelo mercado;
Prós: prazos longos, possibilidade de custo fixo ou híbrido; acesso ao mercado de renda fixa e investidores institucionais;
Contras: custo inicial de emissão alto, rating e exigência de transparência; mercado secundário pode ser ilíquido dependendo do papel;
Sinal de uso: projetos de investimento de médio-longo prazo ou refinancing de perfil;
Taxa encontrada: de 14% a 24% ao ano
Carência: conforme sistema de amortização, podendo ser bastante longo;
Prazo: de dois a dez anos;
Tempo de estruturação: de quatro a dez meses.
e) Nota Comercial (Commercial Paper)
Quando usar: empresas sólidas com necessidade de curto prazo (de seis a 24 meses);
Prós: rapidez; custo potencialmente menor que rotativo. Fácil adaptação a qualquer segmento e operação. Customização;
Contras: renovação periódica depende do mercado; sensível ao estresse de liquidez sistêmica;
Sinal de uso: caixa operacional com previsão de encolhimento no curto prazo, mas crescimento no longo.
Taxa encontrada: de 16% a 28% ao ano;
Carência: de um a 12 meses;
Prazo: geralmente até dois anos;
Tempo de estruturação: 30 dias em média.
f) Equity (capital próprio)
Quando usar: quando a empresa precisa de capital sem alavancagem para financiar crescimento agressivo, M&A ou transformação; ou quando a estrutura atual limita crescimento;
Prós: sem custo fixo de juros; diluição pode ser aceitável frente a ganhos de escala; alavanca recursos do investidor (rede, governança). Sociedade com investidores maduros que podem reorganizar a operação e melhorar os resultados;
Contras: diluição de controle, processo longo (due diligence), expectativas de retorno de investidores;
Sinal de uso: oportunidade de crescimento com TIR esperada elevada, e aversão a alavancagem alta;
Não há taxa de juros por se tratar de venda decotas da companhia;
Tempo de estruturação a conclusão da venda:
de seis a 12 meses.
g) Renegociação / alongamento de dívida
Quando usar: perfil de dívidas concentradas em curto prazo; taxas prefixadas altas contra fluxo operacional frágil;
Prós: reduz risco de liquidez; melhora indicadores (LTC/DSCR) no curto prazo;
Contras: eventuais concessões de garantias ou covenants e elevação de juros;
Sinal de uso: se o cenário de receita é incerto para os próximos seis a 12 meses e existe risco real de apertos de caixa, portanto, o alongamento de dívidas pode ser uma saída;
Taxa encontrada: de 18% a 36% ao ano;
Carência: Até 12 meses;
Prazo: de dois a cinco anos;
Tempo de estruturação: menos de 30 dias, se for com a própria instituição. Em torno de 60 dias se for em outra.
Como decidir: jornada prática (passo a passo)
1.Mapeie o cash runway em 3 horizontes (0–6, 6–12, 12–36 meses) — cenários base, pessimista e otimista;
2. Classifique oportunidades por retorno e urgência: “tem que ter” (giro, folha), “importante” (renegociação, alongamento), “opcional” (capex, expansão);
3.Teste custo efetivo vs benefício real: se você antecipa aumento de vendas, a linha para estoque pode gerar ROI; se não, é risco;
4.Sempre case prazo do financiamento com vida útil do ativo/recebível (matching) — crucial para evitar roll-over e stress de liquidez;
5.Priorize flexibilidade: cláusulas que permitam amortização extra sem penalidade, opções de recompra/early-pay quando couber;
6.Prepare a documentação (DRE, fluxo projetado, garantias, rating interno) antes de sair ao mercado: acelera e melhora preço;
7.Considere soma de instrumentos — ex.: alongar vencimentos via debênture + FIDC para giro sazonal + nota comercial para janela curta.
Checklist operacional
l Projetar fluxo de caixa sob 3 cenários (base/pessimista/otimista);
l Mapear vencimentos nos próximos 12 meses e identificar “buracos” de liquidez;
l Avaliar custos de rollover vs custo de alongamento via mercado privado (pedir 2–3 propostas de bancos e 1 assessorias de crédito privado);
l Priorizar renegociação quando o serviço da dívida compromete capex ou o caixa operacional;
l Preparar data-room (DRE, fluxo, contratos, garantias) para acelerar emissão de FIDC/debêntures se optar por isso.
Conclusão
Em 2026, o ambiente oferece janela (expectativa de cortes) e ruído (eleições, volatilidade externa). Para o empresário, a pergunta crucial não é “posso pegar crédito?”, mas “por quanto tempo preciso desse capital e qual é o risco aceitável se o cenário piorar?”. Priorize liquidez e matching entre o prazo do financiamento e o ativo/fluxo que ele financia. Liquidez bem desenhada e cenários realistas transformarão a incerteza em oportunidade. Essa disciplina é o fator decisivo entre sobreviver e crescer durante um ano instável.

Elaboração
Maicon Farina
Sócio-Diretor da Lure Capital, Vice-presidente da Câmara Setorial de Governança Corporativa da ACIEG e Conselheiro Fiscal do Sicoob Unicidades. Administrador pela PUC-GO, Executivo Financeiro pela FGV-SP, Estratégia pela FDC-MG e de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Especialista em operações estruturadas de crédito e professor de Matemática Financeira.
Mais informações: [email protected]













