Por Rafael Mesquita
Há 50 anos, dona Lourdes inaugurava, na Rua 72, o Restaurante Popular, em homenagem ao bairro de mesmo nome que existia na época no local e foi absorvido pelo Setor Central. O estabelecimento continua sendo um símbolo da região. Não só pela culinária típica, mas por ainda ser um dos poucos casos de sucesso comercial que sobrevivem em um Centro de Goiânia cada vez mais abandonado.
A empresária se recorda com carinho da região nos anos 1970, 80 e 90. “Antes, isso aqui era muito movimentado, tínhamos a clientela de moradores e trabalhadores que existiam no Setor. Hoje, infelizmente, o Centro mudou demais e o comércio está quase todo fechado”, lamenta. Para ela, a falta de segurança leva muita gente a deixar de frequentar a região. “As pessoas têm medo de assalto, de tudo. Eu acredito, por exemplo, que é necessário ações do poder público para retirar os moradores de rua daqui”, avalia.
Maria de Lourdes Salomão Barreto, 84 anos, é nascida e criada em Nerópolis, a cerca de 30 quilômetros de Goiânia. Na cidade natal, aprendeu com a mãe e a avó a cozinhar a “comida de roça”, como ela classifica a culinária do Restaurante Popular. Disco de carne, frango, gueroba, milho, quiabo, paçoca de carne, pequi, feijoada, feijão tropeiro e macarrão. Além da famosa sobremesa, que inclui a ambrosia, o doce de leite e o figo em calda.
O estabelecimento foi aberto um ano após dona Lourdes se casar e mudar para a capital, acompanhando o marido, Décio Barreto, que era servidor da Assembleia Legislativa de Goiás. O casal construiu um barracão, nos fundos da casa dos sogros da empresária, no próprio bairro Popular. Além do esposo, Lourdes também era servidora pública, atuando como professora das redes estadual e municipal de ensino. Na época, o constante atraso de salários foi a situação que a fez ter a ideia de complementar renda fazendo marmitas.
Um dos clientes era proprietário da casa em frente à residência dos sogros, que estava para alugar. Ele sugeriu que dona Lourdes abrisse um restaurante no local. “Me incentivou, dizendo que eu tinha futuro. Fiquei com medo de não conseguir pagar o aluguel, mas aceitei o desafio”, recorda. O início não foi fácil. “Eu conciliava o restaurante com as aulas de manhã e à noite. Andava de ônibus, uma correria danada”, afirma. Até se aposentar em 1992. “A partir daí, me dediquei só ao restaurante, foi quando começamos a crescer muito”, destaca.
O ambiente acolhedor e a comida caseira bem feita atraíram vários empresários que passavam pela região. Um deles foi o ex-secretário da fazenda de Goiás e na época gerente da Planalto Máquinas Agrícolas, Jorcelino Braga. “Ele trouxe muitos empresários para almoçar aqui no restaurante”. A partir daí, o Restaurante Popular começou a fornecer o almoço para várias grandes empresas que atuavam na capital, entre elas: Navesa, Casa do Pica Pau, Schincariol, Tarumã Pneus e Govesa. “Tínhamos 12 carros de entrega só para distribuir as refeições nas firmas”, recorda. Com o sucesso, em 2010, dona Lourdes conseguiu finalmente adquirir o imóvel onde funciona o restaurante e que por tantos anos teve que pagar aluguel.





A fama do estabelecimento fez a lista de clientes aumentar significativamente. São cerca de 300, em média, por dia. Além de empresários e anônimos, políticos e celebridades já passaram por ali. Íris Rezende, Ronaldo Caiado, Lúcia Vânia, Marconi Perillo, Guilherme e Santiago, César Menotti e Fabiano, Sandro Mabel e o cantor Raimundo Fágner são alguns dos exemplos. As fotos de vários deles estão espalhadas pelas paredes de todo o estabelecimento. “Mas trato os clientes da mesma forma, velho ou novo, famoso ou não”, garante. “Tanto restaurante chique em Goiânia e muitos deles preferem almoçar aqui”, orgulha-se.
O trabalho com honestidade, sinceridade e humildade está entre os segredos do sucesso. Obviamente, carregado por um tempero especial. “Tudo aqui é feito com muito amor. Eu era uma professora do interior, não conhecia ninguém em Goiânia. Deus sempre me ajudou”, acredita.
A simplicidade e o afeto fazem da relação com os clientes um dos grandes diferenciais do negócio. “Eles vêm aqui e têm uma consideração grande comigo. Consegui entrar no coração dessas pessoas. Tenho clientes que frequentam o restaurante há 30, 40 anos”, destaca.
Dona Lourdes não esquece dos funcionários. São 25 colaboradores, entre cozinheiros, auxiliares de cozinha e garçons. Alguns, como a Marinete e a Nenzinha, estão no restaurante há 40 anos. Outros há quase 20 anos. Sob o olhar e a supervisão atentos da empresária, desempenham as suas funções da melhor maneira possível. “Eles carregam o restaurante, eu os considero muito. Sou companheira, já auxiliei alguns a construir a própria casa. Vim ao mundo para ajudar as pessoas”, afirma.
Família e aposentadoria
Em um domingo de carnaval, em 1995, dona Lourdes recebeu a notícia da morte do marido Décio. “Ele dormiu, teve um infarto e infelizmente faleceu”, lamenta. O esposo era o “braço direito” dela no restaurante, ajudava nas entregas das marmitas e a auxiliava no trabalho administrativo. Com duas filhas para criar sozinha, Maria Augusta e Maria Angélica, só restava trabalhar ainda mais.
Dona Lourdes segue até hoje essa ideia. As filhas já estão crescidas e formadas em medicina e zootecnia, mas a empresária continua trabalhando arduamente. “Pode faltar arroz no Restaurante, mas eu não”, brinca. Ela afirma que viaja no máximo uma semana por ano com a família para descansar.







Há oito anos, a proprietária do Restaurante Popular recebeu uma das melhores notícias da vida: o nascimento da neta Catarina. “Foi a realização de um sonho, a vida da gente renova. Antes de ela nascer, eu pensava que não chegaria aos 80. Agora, quero viver muito mais”, afirma.
A neta já fala que quer seguir com o restaurante da dona Lourdes. “Há pouco tempo, ela disse que ia ganhar dinheiro trabalhando com a vovó”, diverte-se.
Maria de Lourdes Salomão Barreto nem cogita a aposentadoria. Faz aula de pilates duas vezes na semana e quer se manter bem para continuar trabalhando. “Eu não tenho como parar, são muitas pessoas que dependem de mim. Estarei aqui no restaurante até o fim”, garante.














