Por Rafael Vaz
A história da Caoa não começa em uma fábrica, mas em um impasse comercial. Em 1979, o médico paraibano Carlos Alberto de Oliveira Andrade comprou um Ford Landau que nunca foi entregue porque a concessionária faliu antes da conclusão da venda. Em vez de recorrer apenas à Justiça, ele assumiu a loja como forma de compensação.
O gesto, nascido de indignação, revelou um traço que marcaria toda a trajetória da empresa: transformar contratempos em ponto de partida.

O médico que virou empresário
Nos primeiros anos, o Brasil vivia inflação alta e escassez de crédito. Comprar carro era difícil; financiar, quase impossível. A concessionária recém-assumida encontrou soluções fora do manual. Aceitava gado, terrenos e materiais de construção como pagamento. O que parecia improviso era, na verdade, leitura precisa do ambiente econômico.
Em apenas seis anos, a operação tornou-se a maior revendedora Ford do País. O médico deixava o consultório e consolidava uma estrutura comercial robusta, baseada na expansão territorial e em marketing agressivo. Nas décadas seguintes, a empresa ampliaria sua rede e se tornaria uma das maiores distribuidoras de veículos da América Latina.
A abertura das importações, nos anos 1990, ofereceu novo horizonte. A Caoa passou a representar marcas internacionais e consolidou-se como ponte entre fabricantes estrangeiras e o consumidor brasileiro. A parceria iniciada em 1999 com a Hyundai Motor Company elevou o grupo a outro patamar. O passo decisivo viria em 2007, com a inauguração da fábrica em Anápolis, Goiás — a transição definitiva do varejo para a indústria.
Da Coreia à China: a reinvenção estratégica
A relação industrial com a Hyundai foi longa e transformadora, mas tinha limites estruturais. A Caoa produzia sob licença; o controle global permanecia com a matriz sul-coreana. Após 26 anos, a produção conjunta foi encerrada em 2025, liberando espaço físico e estratégico para um novo ciclo.
Esse novo movimento já vinha sendo preparado. Segundo os presidentes da Caoa, Carlos Philippe Luchesi de Oliveira Andrade e Carlos Alberto de Oliveira Andrade Filho, a relação com a Chery segue sólida. Em entrevista exclusiva à Quatro Rodas, durante o Salão do Automóvel, eles explicaram como decidiram se associar a mais uma fabricante chinesa.
“As conversas entre Caoa e Changan começaram em 2019. A primeira vez que fomos para a China, com nosso pai (Carlos Alberto Oliveira Andrade, falecido em 2021), foi para Chongqing, visitar a Changan — não a Chery [que fica em Wuhu, na província de Anhui]. Ali foi o primeiro contato. Depois as tratativas esfriaram, mas eles voltaram a olhar o mercado brasileiro, perceberam o bom desempenho de outras marcas e propuseram uma aliança estratégica conosco”, afirma Carlos Alberto Filho.
O executivo diz ter sido procurado por outras fabricantes chinesas, mas nenhuma aceitou as três condições impostas pela Caoa: investir na construção de marca, produzir localmente e unir “o melhor da Caoa ao melhor da parceira”. No caso da Changan Automobile, isso significa combinar tecnologia avançada, considerada um dos pontos altos da indústria chinesa, com o conhecimento da Caoa sobre o mercado brasileiro e sua rede de concessionárias.

Carlos Philippe complementa que a Changan também aceitou facilmente outra exigência: utilizar o nome Caoa junto da marca chinesa. “Explicamos que isso reduz custos de marketing, porque a Caoa já tem uma história consolidada”, reforça Carlos Alberto Filho.
Apesar da parceria, a operação da Changan no Brasil será 100% comandada pela Caoa. “Com a Changan é diferente: começamos do zero e tivemos mais liberdade para estruturar a operação como queríamos”, diz Carlos Philippe.
A nova linha ocupará o espaço deixado pela Hyundai em Anápolis. O investimento será integralmente da Caoa, com produção prevista para 2026.
A sucessão e a consolidação do grupo
A morte do fundador, em 2021, poderia ter representado instabilidade. O que ocorreu foi o contrário. Sob o comando dos filhos, a empresa passou por forte expansão.
Desde então, os irmãos investiram R$ 3 bilhões na ampliação industrial em Goiás. A produção da fábrica dobrou, de 30 mil veículos em 2023 para 60 mil em 2024, e a previsão é atingir 70 mil unidades em 2025, com operação contínua. O grupo reúne hoje mais de 10 mil colaboradores diretos e já comercializou 3 milhões de veículos no País.
Em 2024, pela primeira vez, a receita foi divulgada no ranking Valor 1000: R$ 16,8 bilhões, crescimento de 43% sobre o ano anterior. Para 2025, a estimativa é alcançar R$ 20 bilhões.
A sucessão foi formalizada com a adoção do modelo de copresidência executiva. “Estamos vivendo um momento de transformação e crescimento. Acreditamos que esse modelo de coliderança permitirá ainda mais agilidade nas decisões e foco nas frentes estratégicas que guiarão o futuro da Caoa”, disse Carlos Alberto.
Para Philippe, “assumir essa posição, ao lado do meu irmão, é mais do que um marco profissional, é a realização de um sonho em família. Este é o momento de unirmos nossas visões para fortalecer ainda mais a Caoa, expandir sua atuação e prepará-la para as oportunidades do futuro”.
A empresa afirma que um de seus pilares é “priorizar a satisfação do cliente, honrando o legado construído e impulsionando o grupo a novos patamares de sucesso”.
Além disso, em entrevista à revista Autoesporte, os irmãos confirmaram que o projeto de uma marca 100% nacional continua sendo um dos planos estratégicos da companhia.

Caoa em números (2024-2025)
R$ 16,8 bilhões Receita líquida em 2024
+43% Crescimento em relação a 2023
R$ 20 bilhões Receita estimada para 2025
79ª posição Ranking Valor 1000 (2024)
Mais de 10 mil colaboradores diretos
3 milhões de veículos comercializados no Brasil













