Goiânia ostenta números de metrópole global. É um orgulho dos goianos de nascimento ou de coração. É bonito ver um drone captando imagens da nossa capital. Moderna, ousada, rica, alegre, receptiva. Ninguém quer associar a este carrossel de adjetivos a palavra burra, inculta, certo?
Não faltam prédios, obras, bares, PIB e empregos.
Mas nos faltam livros e leitores.
Por trás das fachadas de vidro, arranha-céus e do crescimento econômico, um dado recente da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024-2025) revela uma fratura exposta na nossa base civilizatória: somos a capital brasileira com o menor índice de leitura do País.
Repetindo: pior índice de leitura do Brasil entre as capitais.
Uau, que vergonha.
Estamos na Série D ou algo parecido da cultura nacional – porque, sem leitura, o que pode se esperar da nossa formação cultural?
Segundo o estudo, que é respeitado, apenas 40% dos goianienses com cinco anos ou mais leram ao menos um livro – ou sequer um fragmento dele – nos três meses anteriores à pesquisa. Enquanto o Brasil discute inovação e inteligência artificial, áreas em que tentamos marcar posição de destaque, a capital de Goiás amarga um número que deveria tirar o sono de gestores públicos, empresários e educadores. Mas, o incrível é que incomoda menos do que precisa.
Não se trata apenas de “falta de hábito”. O que estamos testemunhando é uma verdadeira amputação da cidadania. O indivíduo que não lê é um cidadão que perde a capacidade de decodificar o mundo, de questionar ou de propor.
Sem o repertório da leitura, o pensamento torna-se raso, a argumentação se esvazia e a reação diante das injustiças se anula – sem contar com a dominação e “escravidão” de ideias avançarem mais fácil e rápido.
Pessoas que não leem tendem a ser pessoas constrangidas, passivas, incapazes de questionar com profundidade os rumos da própria sociedade.
A leitura é a ferramenta que molda o espírito crítico. Quando uma cidade abre mão desse instrumento, ela aceita o aborto diário de ideias. Quantos projetos, inovações e soluções para os nossos problemas urbanos e sociais estão morrendo antes mesmo de serem concebidos porque a nossa população é passiva?
Goiás é terra de Cora Coralina, de Bernardo Élis, de JJ Veiga, Siron Franco e tantos outros nomes. E são poucos, tamanha nossa história como povo, com três séculos de existência. O que estamos gerando de novos e bons nomes na cultura nacional? Não podemos ser e viver dessa referência perigosa da música e hit sertanejo. Essa é a cultura que envolve e também sufoca. Não tem nada mais?
Temos uma herança cultural que leva a transformar o regional em universal. Ignorar o livro é uma ofensa direta à nossa goianidade, nossa história. É permitir que o progresso material soterre a riqueza que nos define.
Uma cidade que cresce apenas para fora, sem expandir o seu repertório interno, é uma cidade que caminha para a obsolescência intelectual. Precisamos reagir e nos indignar.
Quando vamos reconfigurar o valor do conhecimento na nossa capital? Quem está à frente deste processo? Qual nosso futuro como povo?
A leitura deve ser tratada como infraestrutura básica, tão essencial quanto o asfalto, a rede elétrica, comida.
Sem a leitura, o crescimento é apenas um inchaço. A obra não pode ser só a parede dos prédios e a safra, grãos. Precisamos de obras literárias e safra de escritores locais.
É a hora de Goiás decidir se quer ser lembrado apenas pela força dos seus tratores, de seus prédios, ou também pela relevância das suas mentes. O índice de 40% não é apenas um número; é um grito opressivo contra uma cidadania sufocada pelo desinteresse. Pelos seus filhos, leiam. Compremos livros.
“Leitores goianos, uni-vos!”
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














