Por Rafael Mesquita
O ano de 2026 marca os 30 anos de Newton Emerson Pereira, ou Niltim, como é popularmente conhecido, no segmento de bares e restaurantes em Goiânia. A história começou em 1996. O pai havia vendido, há pouco tempo, a empresa da família, Boivet, uma indústria especializada na fabricação de sais minerais para rebanho bovino. A convite de um cunhado, ele decide investir no novo setor
Primeiro, os dois foram a Belo Horizonte, capital conhecida pela agitada vida noturna, conhecer o que havia de melhor em bares e restaurantes e que poderia ser implantado no novo empreendimento na capital goiana. “Fomos ao Companhia do Boi, que fazia carne na chapa. Foi a ideia para montarmos algo parecido”, lembra.
Nascia então, no Setor Bueno, em Goiânia, o Cateretê Restaurante. A sociedade envolvia Newton e a sua esposa, Maria Beatriz Tokarski; o cunhado e a esposa dele; além de outra cunhada de Niltim. “Abrimos as portas e no primeiro dia já foi uma loucura, pessoas em pé pedindo mesa, garçons sem conhecer o cardápio, a gente ainda inexperiente. Tivemos que fechar por dois dias para nos prepararmos melhor”, explica.
Era novembro de 1996. A concorrência de bons restaurantes em Goiânia era bem menor. Os mais sofisticados não permaneciam por muito tempo no mercado, por isso trazer algo novo seria uma aposta. Mas, no caso do Cateretê, deu certo. “Revolucionamos o segmento na cidade, trouxemos várias novidades de uma vez só”, afirma.
Os clientes goianienses não conheciam a macia e saborosa carne maturada (embalada a vácuo, armazenada por 20 dias em uma câmara fria) assada na hora. Ainda se surpreenderam com a forma despojada de vestimenta dos garçons para a época (camisa gola polo amarelada) e com a primeira brinquedoteca de bar e restaurantes em Goiânia, anos depois melhorada com brinquedos de parque de festa e copiada por outros estabelecimentos do setor.
Newton conta que ainda trouxe para a capital a mini tulipinha. “Eu me incomodava em ver que a maioria dos bares na cidade só servia cerveja em copo americano”, brinca. No caso do jogo americano de mesa inteira, a ideia era economizar e contribuir com o meio ambiente. “Gastávamos uma fortuna com forro de mesa de pano, pois a cada uso retirávamos para lavar. Foi também a nossa contribuição com a sustentabilidade”, destaca.
O sucesso do restaurante fez o empresário abrir outra unidade, no Setor Oeste, em Goiânia, que há dez anos foi transferida para o Jardim Goiás. Mas a ideia de expansão parou por aí. “No início, pensei em ter o Cateretê até em outras cidades, mas, hoje, isso está descartado”, garante. Segundo ele, o maior problema é a falta de mão de obra. “Há um déficit no setor em Goiás e em todo o País”, avalia.
Os anos se passaram, o Cateretê conseguiu se manter e já prepara mais novidades para comemorar as três décadas de existência. Várias reformas estão previstas, como a da brinquedoteca, do salão e até do cardápio, mas sem mudanças drásticas. “Vamos apresentar novos cortes aos clientes, mantendo a tradição da carne. Ainda teremos uma série de atividades para comemorar essa vitória de estar vivo por tanto tempo em um segmento tão concorrido”, afirma.
Estar há 30 anos nesse setor empresarial é algo raro na capital. São poucos os bares e restaurantes que conseguiram se manter por tanto tempo. Há ainda a concorrência de novos estabelecimentos com cardápio sofisticado e que têm agradado o público. Mesmo assim, Newton entende que é preciso caminhar junto para o fortalecimento de todos.
Associativismo
Em 2004, Newton foi um dos principais responsáveis pela criação, em Goiás, da seccional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Foi presidente no início da entidade no Estado e conseguiu, em um ano, ampliar de, 20 para 200, a quantidade de estabelecimentos associados. “Quebramos o paradigma de que donos de bares são inimigos. Hoje, a relação mudou: somos todos concorrentes, mas um dá força para o outro”, afirma. O empresário acredita que a troca de ideias e informações facilitou, inclusive, a entrada de novos investidores para o segmento.
Após deixar o comando da Abrasel, Newton contribuiu, em 2017, com a criação do Sindicato de Bares e Restaurantes (Sindibares). À frente do sindicato patronal, ele afirma que tem buscado dinamizar o setor na cidade. “Nos aproximamos dos sindicatos laborais e conseguimos melhorar as condições de trabalho. Isso proporcionou o investimento de grupos de Goiás e de fora do Estado no setor”, avalia.
Mesmo assim, o empresário acredita que há um esgotamento do segmento em Goiânia. “Há 20 mil botecos, vendas, bares e restaurantes em Goiânia para atender uma população de um milhão e 500 mil habitantes”, explica. Mas há saídas para o setor, entre elas o investimento em turismo. “Estamos apostando na MotoGP (campeonato mundial de moto que, no próximo mês de março, será realizado em Goiânia), em que estamos vislumbrando 200 mil turistas”, afirma. Para o período, será lançado o guia gastronômico digital do evento, em que bares e restaurantes da cidade serão apresentados aos turistas.
Outra aposta é a tentativa de retorno do som ao vivo a bares e restaurantes de Goiânia. “Já fomos conhecidos como a capital do som ao vivo no Brasil, mas isso, infelizmente, acabou. Precisamos trazer de volta para dar maior movimentação e sustentação ao segmento”, avalia.
Há ainda a lei, sancionada recentemente pelo prefeito Sandro Mabel, que declara Goiânia oficialmente a Capital da Boa Mesa. “A nossa ideia é mostrar que a cidade tem comida excelente para todos os gostos: lanches, pastéis, jantinha, espetinho, confeitarias, pizza, japonesa, italiana e brasileira”, explica. “Temos diferenciais que nos credenciam como merecedores desse título”, avalia.
A importância do segmento para a economia goiana é o principal argumento a favor. O setor é o que mais emprega no Estado: 150 mil pessoas. Somente na capital, são 70 mil. No País, o número chega a seis milhões, quase o dobro de contratações da construção civil. “Queremos levar bares e restaurantes não só para colunas sociais, mas para as páginas de economia dos jornais”, defende.
Apesar de ter contribuído tanto para o setor em Goiás, se pudesse voltar no tempo, Newton teria feito algo diferente. “Por pensar muito no associativismo, deixei de investir o quanto deveria no meu negócio. Hoje, tenho a mentalidade de que as entidades representativas devem ser geridas por executivos. Temos um profissional contratado no sindicato que realiza esse trabalho atualmente”, explica.




O início
Nascido em Goiânia, Newton cresceu em uma fazenda na zona rural da cidade, no período em que o pai, Edson Pereira, era funcionário do escritório do Ministério da Agricultura. A mãe, dona Rosaura, criava os seis filhos. Na época, uma kombi passava no local para levar as crianças à escola, localizada na cidade.
Mesmo com as dificuldades, já que, durante a infância, perdeu um braço e ficou cego de um olho em um acidente na serraria do avô, Edson Pereira se formou em Medicina Veterinária no Rio de Janeiro. Inicialmente, a universidade queria impedi-lo de fazer o curso, por causa da deficiência física.
Anos depois, foi um dos primeiros veterinários de Goiânia e um dos fundadores da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás, com forte atuação em pesquisas de doenças em grandes animais.
Edson ainda fundou a empresa Cria Bem Pecuária, especializada em sais minerais para rebanho bovino, e, posteriormente, a Boivet, que atuava no mesmo segmento. Nesta última, teve o apoio direto dos dois filhos homens. Um deles se tornou veterinário. Já Newton optou por se formar em Administração de Empresas na Universidade Católica de Goiás.
Na empresa, atuava na área administrativa, com escritório e emissão de notas. “Ficamos muito tempo com a Boivet e enfrentamos os planos econômicos malucos que o Brasil tinha nos anos 1980 e 1990. A companhia teve muito problema financeiro, justamente em um período em que estávamos em franca expansão”, recorda.
Em 1994, a Boivet foi vendida para um grupo empresarial de Anápolis. Mesmo assim, o modelo de empresa familiar continuaria presente na vida de Newton. Dessa vez, em outro segmento.


Família, netos e trabalho
O Cateretê é uma empresa familiar em que a sociedade atualmente envolve, além de Newton, que cuida da parte financeira; a sua esposa Beatriz, responsável pela manutenção visual e limpeza do restaurante, e os filhos Emerson (marketing e contratação de RH) e Juliane (operacional de alimentos e bebidas).
Mesmo estando ao lado de pessoas em quem tanto confia, Newton nem pensa em deixar de trabalhar. “Enquanto eu tiver gás, estarei à frente dos negócios”, afirma.
Estando em Goiânia, Newton comparece todos os dias ao Cateretê, mas admite que o maior hobby, atualmente, é cuidar dos cinco netos. “Meus filhos trazem os meninos aqui no restaurante, a gente se reúne em casa. Estamos sempre juntos”, afirma.
Todos os anos, o empresário vai a Boston, nos Estados Unidos, visitar a filha Mariane e os dois netos que vivem lá. “No ano passado, fiquei 12 dias. Faço minhas reuniões de negócios por meio do WhatsApp, mas, nesse período, consigo me desligar facilmente e aproveitar”, garante.
O empresário é otimista quanto ao futuro e entusiasta das novas tecnologias. “A inteligência artificial vai melhorar demais a gestão dos negócios, que hoje é tão carente no nosso segmento. Isso vai permitir que outros restaurantes tenham a longevidade que o Cateretê tem em Goiânia”, acredita.
















