A política fiscal brasileira vive uma encruzilhada histórica. Com a dívida bruta do governo geral superando os 76% do PIB em maio de 2025 — patamar elevado mesmo entre países emergentes — e um resultado primário que oscila entre déficit e superávit tímido, o Brasil se vê diante da necessidade de uma reforma estrutural profunda. Mas o que torna esse momento particularmente crítico não é apenas o tamanho da dívida, e sim a ausência de um projeto nacional que oriente o uso dos recursos públicos com racionalidade e visão de futuro.
O presente artigo questiona a precisão e a imparcialidade do Relatório Focus, que o Banco Central consolida a partir de projeções de um grupo restrito de cerca de cem analistas de mercado. O argumento é de que o relatório, mais do que um indicador técnico, pode funcionar como um instrumento com vieses sistemáticos que influenciam a política monetária em favor de interesses específicos, notadamente, do mercado financeiro.
A análise central compara as projeções para 2025, divulgadas no final de 2024, com os resultados observados ao término de 2025. Os dados apurados revelam distorções significativas: a inflação (IPCA) ficou 12% abaixo do projetado (4,26% contra 4,84%), o crescimento do PIB foi 11,9% superior (2,26% contra 2,02%) e o déficit primário do governo resultou 16,7% menor (0,5% do PIB contra 0,6%). Paradoxalmente, mesmo com a melhora desses três indicadores-chave, a taxa Selic foi mantida em patamares elevados, fechando o ano em 15%, acima da projeção inicial de 14,75%.
A manutenção dos juros altos em um cenário de desaceleração clara da inflação sucinta o questionamento de quem se beneficia dessa política. A resposta aponta para os investidores e detentores de títulos da dívida pública, cuja rentabilidade foi ampliada por uma política monetária contracionista. Essa política foi frequentemente justificada por projeções de mercado que se mostraram excessivamente pessimistas.
Aprofundando a análise, ao examinar a dispersão das projeções do IPCA ao longo de 2025, constata-se que, mesmo com a proximidade do fim do ano e a consolidação dos dados, uma variância considerável, entre as previsões dos analistas persistiu. Em novembro, por exemplo, com a inflação já se desenhando em torno de 4,26%, 14,3% dos analistas ainda insistiam em projeções próximas a 4,96%. Essa persistência em previsões díspares, sem justificativa técnica clara, levanta a suspeita de que a média das projeções possa ser influenciada para justificar a manutenção dos juros elevados, o que resultou na escalada dos juros reais de 9,35% para 10,57% no período.
Por fim, o artigo finaliza com um chamado à ação. É imperativo iniciar um debate sério e transparente sobre a metodologia do Relatório Focus, a identidade de seus participantes e o peso que suas projeções devem ter na formulação da política monetária. Estende-se a crítica à grande imprensa, que propagaria essas projeções sem o devido escrutínio. O objetivo é buscar um processo mais democrático, que não se submeta a vieses que, historicamente, favoreceram a especulação financeira em detrimento do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Talvez a participação do setor produtivo nas projeções poderia ser uma primeira iniciativa. Cabe ressaltar que o Banco Central do Brasil não é uma instituição isenta de críticas, como o mercado financeiro e a grande imprensa tentam impor. Como instituição de uma democracia, tem a obrigação de dar transparências nas suas ações.

Marcos Freitas,
Doutorando em Turismo, mestre em Finanças e economista.














